| | PREFÁCIO DA SEGUNDA EDIÇÃOOs números referidos neste prefácio descrevem a Comunidade em 1955  - Desde que foi escrito o Prefácio original deste livro em 1939, produziu-se um milagre em grande escala. A nossa primeira tiragem expressava a esperança de "que um dia todo o alcoólico em viagem possa encontrar no seu destino um grupo de Alcoólicos Anónimos. Já," prosseguia o texto inicial, "surgiram noutros sítios grupos de dois, três e cinco de nós."
- Passaram dezasseis anos entre a primeira impressão deste livro e o aparecimento da nossa segunda edição em 1955. Neste curto espaço de tempo, os Alcoólicos Anónimos cresceram rapidamente para 6.000 grupos com um número de membros que excede de longe 150.000 alcoólicos recuperados. Há grupos em todos os Estados Unidos da América e em todas as províncias do Canadá. O A.A. conta com várias comunidades florescentes nas Ilhas Britânicas, nos países Escandinavos, na África do Sul, na América do Sul, no México, no Alasca, na Austrália e no Havai. Em suma, inícios prometedores foram feitos em 50 países estrangeiros ou possessões americanas. Neste momento, estão em formação grupos na Ásia. Muitos dos nossos amigos encorajam-nos, dizendo que isto é apenas um começo, um simples presságio de um futuro ainda mais vasto que se nos depara.
- A centelha que iria dar origem ao primeiro grupo A.A. surgiu em Akron, Ohio, em Junho de 1935, por ocasião de uma conversa entre um corretor da Bolsa de Nova Iorque e um médico de Akron. Seis meses antes, o corretor tinha-se libertado da sua obsessão pelo álcool através de uma inesperada experiência espiritual, na sequência de um encontro com um amigo alcoólico que tinha estado em contacto com os Grupos de Oxford dessa época. Tinha também sido imensamente ajudado pelo falecido Dr. William D. Silkworth, um especialista em alcoolismo de Nova Iorque, que é actualmente venerado como uma espécie de santo da ciência médica pelos membros de A.A. e, cuja história, que data das origens da nossa Sociedade, figura nas primeiras páginas deste livro. Através deste médico o corretor aprendeu a grave natureza do alcoolismo. Sem conseguir aderir a todos os princípios dos Grupos de Oxford, ele compenetrou-se da necessidade do inventário moral, da confissão dos defeitos de personalidade, da reparação dos danos causados a outros, da disponibilidade para ajudar os outros e da necessidade da crença e dependência de Deus.
- Antes da sua viagem a Akron o corretor tinha-se empenhado com grande esforço junto de muitos alcoólicos, com base na teoria de que só um alcoólico pode ajudar outro alcoólico, embora só tenha conseguido com isso manter-se ele próprio sóbrio. O corretor fora a Akron num assunto de negócios que tinha fracassado, deixando-o no pavor de poder recomeçar a beber. De repente, tomou consciência de que para se salvar a si próprio, tinha de levar a sua mensagem a outro alcoólico. Este outro alcoólico veio a ser o médico de Akron.
- Este médico tinha repetidamente tentado resolver o seu dilema alcoólico por meios espirituais, porém sem o conseguir. Mas, quando o corretor lhe comunicou a descrição do Dr. Silkworth sobre o alcoolismo e o seu carácter irremediável, o médico voltou-se de novo para a solução espiritual da sua doença com uma disposição que nunca tinha tido até aí. Ficou sóbrio sem nunca mais voltar a beber até ao momento da sua morte em 1950. Isto veio aparentemente provar que um alcoólico podia influenciar outro de um modo que uma pessoa não alcoólica jamais poderia fazer. A experiência indicava igualmente que o trabalho persistente de um alcoólico com outro era vital para uma recuperação permanente.
- Os dois homens começaram então activamente a dedicar os seus esforços aos alcoólicos que chegavam à enfermaria do Akron City Hospital. Justamente o seu primeiro caso, considerado desesperado, recuperou imediatamente e veio a ser o terceiro membro de A.A. Nunca mais voltou a beber. Esta actividade prosseguiu em Akron durante o verão de 1935. Os fracassos foram muitos com êxitos pontuais animadores. Quando o corretor voltou para Nova Iorque no outono de 1935, o primeiro grupo de A.A. estava na realidade já formado, embora ninguém se tivesse apercebido disso na altura.
- No final de 1937, o número de membros com um período de sobriedade apreciável era suficiente para convencer os outros de que uma nova luz tinha surgido no mundo sombrio dos alcoólicos.
- Um segundo pequeno grupo formou-se rapidamente em Nova Iorque. Além disso, alcoólicos dispersos por vários sítios tinham captado os princípios básicos utilizados em Akron ou Nova Iorque e tentavam formar novos grupos noutras cidades.
- Tinha agora chegado a altura, pensavam os membros dos grupos que prosseguiam com os seus esforços, de anunciar ao mundo a sua mensagem e singular experiência. Esta determinação deu os seus frutos na primavera de 1939 com a publicação deste livro. Tinha-se atingido aproximadamente uma centena de membros, homens e mulheres. A sociedade nascente, até aí sem nome, começou então a chamar-se Alcoólicos Anónimos em função do título do seu próprio livro. O período inicial de andar à deriva chegava ao seu fim e o A.A. entrava numa nova fase da sua época pioneira.
- O aparecimento do novo livro deu origem a uma série de acontecimentos. O Dr. Harry Emerson Fosdick, eclesiástico de renome, fez-lhe uma crítica favorável. No outono de 1939, Fulton Oursler, então director da revista Liberty, publicou nesta revista um artigo intitulado "Os Alcoólicos e Deus". O artigo desencadeou uma avalanche de 800 pedidos de informação desesperados ao pequeno escritório recém-constituído de Nova Iorque. Respondeu-se a cada pergunta com um cuidado minucioso e enviaram-se folhetos e livros. Homens de negócios, já membros de grupos existentes, foram ter com eventuais novos membros durante as suas viagens. Formaram-se novos grupos e descobriu-se, para surpresa geral de todos, que a mensagem de A.A. podia ser transmitida tanto por correio como verbalmente. No fim de 1939, estimava-se em 800 o número de alcoólicos em vias de recuperação.
- Na primavera de 1940, John D. Rockefeller Jr., ofereceu um jantar a vários amigos para o qual tinha convidado membros de A.A. para contarem as suas experiências. Esta novidade espalhou-se rapidamente pelo mundo fora através da imprensa; os pedidos de informação afluíram de novo em série e várias pessoas procuravam nas livrarias o livro "Alcoólicos Anónimos". Em Março de 1941, o número de membros tinha crescido para os 2.000. Foi então que Jack Alexander escreveu um artigo de fundo no Saturday Evening Post e apresentava ao grande público uma imagem de A.A. tão convincente, que fomos literalmente inundados pelos alcoólicos com necessidade de ajuda. No fim de 1941, o A.A. contava com 8.000 membros. O processo de rápido crescimento estava em plena actividade. O A.A. tinha-se tornado uma instituição nacional.
- A nossa Sociedade entrou então num período de adolescência simultaneamente tímido e emocionante. O teste a que tinha de se submeter era o seguinte: conseguiria este grande número de alcoólicos, outrora irresponsáveis, juntar-se e trabalhar concertadamente? Haveria que esperar lutas em questões de admissão, liderança e dinheiro? Teria que se assistir a lutas pelo poder e prestígio? Surgiriam cisões susceptíveis de desintegrar o A.A.? Em breve o A.A. se defrontaria com estes mesmos problemas por todos os lados e em todos os grupos. Porém, desta horrível experiência, a princípio devastadora, surgiu a convicção de que o A.A. teria de sobreviver em conjunto ou morrer separadamente. Teríamos de lutar pela unidade da Comunidade ou desaparecer de cena.
- Tal como descobrimos os princípios pelos quais cada alcoólico poderia viver, tivemos assim que criar princípios pelos quais os grupos de A.A. e o A.A. no seu conjunto poderiam sobreviver e funcionar eficazmente. Concluiu-se que nenhum alcoólico, homem ou mulher, poderia jamais ser excluído da nossa Sociedade; que os nossos líderes poderiam servir mas nunca governar; que cada grupo deveria ser autónomo e que não haveria qualquer espécie de terapia profissional. Não haveria taxas de admissão nem quotas; as nossas despesas deveriam ser suportadas pelas nossas próprias contribuições voluntárias. Era necessário reduzir a organização à expressão mais simples, mesmo nos nossos centros de serviço. As nossas relações públicas tinham que assentar mais na atracção do que na promoção. Decidiu-se que todos os membros deveriam respeitar o anonimato a nível da imprensa, rádio, televisão e cinema. E, em nenhuma circunstância, deveríamos caucionar outras organizações ou associar-nos formalmente a elas, nem entrar em controvérsias públicas.
- Isto constituiu a essência das Doze Tradições de A.A., que se encontram na sua versão integral na página 136 deste livro. Embora nenhum destes princípios tivesse a força de regra ou lei, havia um consenso tão generalizado sobre eles por volta de 1950, que foram ratificados na nossa primeira Conferência Internacional em Cleveland. Actualmente, a notável unidade de A.A. é um dos maiores atributos da nossa Sociedade.
- À medida que as dificuldades internas do nosso período de adolescência iam diminuindo, a aceitação pública de A.A. crescia a passos largos, em função de dois factores principais: do grande número de recuperações e de lares restabelecidos. Estes factores produziam efeito por toda a parte. Dos alcoólicos que tentavam verdadeiramente dar uma oportunidade ao A.A., 50% ficavam sóbrios imediatamente e assim se mantinham; 25% alcançavam a sobriedade depois de algumas recaídas e, dos restantes, os que ficavam no A.A. faziam progressos. Milhares de outros vieram a umas tantas reuniões de A.A. e acharam que o programa não era para eles. Mas uma grande parte destes - aproximadamente dois em cada três - voltava com o tempo.
- Uma outra razão para explicar a aceitação geral de A.A. foi a ajuda de amigos - amigos da classe médica, do meio religioso e da imprensa, assim como tantos outros que se tornaram os nossos idóneos e persistentes defensores. Sem o seu apoio, o A.A. só teria conseguido progredir muito lentamente. Algumas das recomendações que nos deram os nossos primeiros amigos da medicina e da religião vêm mais adiante neste livro.
- Os Alcoólicos Anónimos não são uma organização religiosa. Também não assumem qualquer ponto de vista médico, embora colaborem amplamente com a classe médica e eclesiástica.
- Como o álcool não respeita pessoas, nós somos na América uma amostra muito representativa da sua população e, em países estrangeiros, observa-se o mesmo processo democrático a despontar no horizonte. No âmbito das religiões, incluímos católicos, protestantes, judeus, hindus e um pequeno número de muçulmanos e budistas. Mais do que 15% dos nossos membros são mulheres.
Actualmente, o número de membros cresce na ordem dos 7% ao ano. Até aqui, apenas tocámos ao de leve no problema global dos vários milhões de alcoólicos efectivos e potenciais que existem em todo o mundo. Nunca seremos capazes, com toda a probabilidade, de alcançar mais do que uma razoável fracção do problema alcoólico em todas as suas ramificações. Quanto à terapia para o próprio alcoólico, não temos seguramente nenhum monopólio. Contudo, temos uma enorme esperança de que todos aqueles que ainda não conseguiram encontrar uma resposta, possam encontrar uma nas páginas deste livro e se juntem agora a nós no caminho para uma nova liberdade. PREFÁCIO DA PRIMEIRA EDIÇÃO Prefácio como apareceu na primeira impressão da primeira edição em 1939. - Nós, os Alcoólicos Anónimos, somos mais de uma centena de homens e mulheres que nos recuperámos de uma condição mental e física aparentemente irremediável. O objectivo principal deste livro é de explicar a outros alcoólicos precisamente como nos recuperámos. Esperamos que estas páginas se tornem tão convincentes que não seja necessária mais nenhuma prova de autenticidade. Cremos que a descrição das nossas experiências ajudará todos a entender melhor o alcoólico. Muitos não compreendem que o alcoólico é uma pessoa muito doente. Além disso, temos a certeza de que o nosso modo de vida tem vantagens para todos.
- É importante permanecermos anónimos porque actualmente somos muito poucos para atendermos ao grande número de pedidos pessoais que possam resultar desta publicação. Como somos na maior parte pessoas de negócios ou com profissões liberais, não poderíamos, nestas circunstâncias, prosseguir convenientemente com os nossos empregos. Gostaríamos que ficasse bem claro que a nossa actividade junto de alcoólicos não é profissional.
- Ao escrevermos ou falarmos publicamente sobre alcoolismo, recomendamos a todos os nossos membros que omitam o seu nome e se identifiquem em vez disso como "um membro dos Alcoólicos Anónimos".
- Muito sinceramente pedimos de igual modo à imprensa que respeite este pedido, porque senão seríamos muito prejudicados.
- Não somos uma organização no sentido convencional do termo. Não há taxas de admissão nem quotas de qualquer espécie. O único requisito para ser membro é um desejo sincero de parar de beber. Não estamos ligados a nenhuma religião, seita ou confissão em particular, nem nos opomos a quem quer que seja. Procuramos simplesmente ser de utilidade aos que sofrem desta doença.
- Teremos interesse em ter notícias dos que obtiverem resultados com este livro, particularmente dos que começaram a trabalhar com outros alcoólicos. Gostaríamos de ajudar nesses casos.
Quaisquer perguntas por parte de organismos científicos, médicos e religiosos serão bem recebidas. A OPINIÃO DO MÉDICO - Nós, os Alcoólicos Anónimos, pensamos que o leitor terá interesse em conhecer a opinião médica sobre o programa de recuperação descrito neste livro. Não oferece dúvidas de que um testemunho convincente deve vir de pessoas da classe médica que tiveram a experiência dos sofrimentos dos nossos membros e presenciaram o nosso retorno à saúde. Um médico eminente, director clínico de um hospital de reputação nacional especializado na adicção ao álcool e drogas, deu aos Alcoólicos Anónimos a seguinte carta:
- Especializei-me no tratamento de alcoolismo durante muitos anos.
- Nos fins de 1934, tratei um paciente que, apesar de ter sido um competente homem de negócios, com muita capacidade para ganhar dinheiro, era um alcoólico de um tipo que eu tinha chegado a considerar irrecuperável.
- Durante o seu terceiro tratamento, adquiriu determinadas ideias sobre um possível processo de recuperação. Como parte da sua reabilitação, começou a dar a conhecer os seus conceitos a outros alcoólicos, incutindo neles a necessidade de fazer o mesmo com outros. Isto tornou-se a base de uma comunidade em rápido crescimento formada por essas pessoas e suas famílias. Tudo leva a crer que este homem e mais uma centena se recuperaram.
- Conheço pessoalmente uma quantidade de casos do mesmo género com os quais outros métodos falharam por completo.
- Estes factos parecem ter a maior importância médica e, devido às extraordinárias possibilidades de rápido crescimento inerentes a este grupo, eles podem vir a assinalar uma nova época nos anais do alcoolismo. É bem possível que estes homens tenham um remédio para milhares de casos nestas situações.
- Pode confiar-se inteiramente em tudo o que contem a respeito de si próprios.
- Muito sinceramente,
William D. Silkworth, M.D.
- O médico que, a nosso pedido, nos deu esta carta, teve a amabilidade de desenvolver as suas ideias noutra declaração que a seguir se pode ler. Nessa declaração, confirma que nós, que sofremos a tortura alcoólica, temos de acreditar que o corpo do alcoólico é tão anormal como a sua mente. Não nos satisfazia a explicação de que não podíamos controlar a nossa maneira de beber só porque éramos desadaptados em relação à vida, ou porque estávamos em plena fuga da realidade, ou porque tínhamos incontestavelmente uma deficiência mental. Tudo isto era verdade até um certo ponto e, com efeito, até a um grau bem considerável em alguns de nós, mas temos a certeza de que os nossos corpos também estavam doentes. Na nossa opinião, qualquer descrição do alcoólico que não inclua este factor físico é incompleta.
- A teoria do médico de que temos uma alergia ao álcool interessa-nos. Como leigos, a nossa opinião sobre o seu fundamento pode ter pouca importância mas, como ex-bebedores do género que se torna um problema, podemos dizer que esta explicação faz muito sentido. Esclarece muitas coisas que não podíamos explicar de outro modo.
- Embora procuremos num plano espiritual e altruísta a solução para o nosso problema, defendemos a hospitalização no caso do alcoólico que ainda está muito nervoso e com o espírito confuso. A maior parte das vezes, impõe-se que as funções cerebrais do doente sejam restabelecidas antes de se conversar com ele, visto que então terá mais probabilidades de entender e aceitar o que temos para lhe oferecer.
- O médico escreve:
- O tema apresentado neste livro parece-me ser da maior importância para aqueles que sofrem da adicção ao álcool.
- Digo isto depois de muitos anos de experiência como Director Clínico de um dos mais antigos hospitais do país especializado no tratamento da adicção ao álcool e drogas.
- Senti portanto verdadeira satisfação quando me pediram para contribuir com algumas palavras sobre um tema tratado nestas páginas com tanto detalhe e mestria.
- Como médicos, reconhecemos há muito tempo que uma certa forma de psicologia moral é de uma premente importância para o alcoólico, mas a sua aplicação apresentava dificuldades fora dos nossos conceitos. Os padrões ultra-modernos e a abordagem científica que aplicamos a tudo, podem ser a razão de estarmos mal equipados para aplicar as forças do bem que transcendem o nosso conhecimento sintético.
- Há muitos anos, um dos principais colaboradores deste livro esteve sob o nosso cuidado neste hospital e durante esse tempo concebeu certas ideias que pôs imediatamente em prática.
- Mais tarde, pediu licença para contar a sua história a outros pacientes, o que lhe concedemos com uma certa reserva. Os casos que seguimos de perto têm sido extremamente interessantes. Com efeito, muitos deles são espantosos. A abnegação destes homens, à medida que os viemos a conhecer, a sua motivação isenta de qualquer forma de interesse pessoal e o seu espírito de comunidade são realmente uma inspiração para quem tem trabalhado longa e extenuadamente no campo do alcoolismo. Eles acreditam em si mesmos e ainda mais no Poder que arranca os alcoólicos crónicos das garras da morte.
- Naturalmente que um alcoólico precisa de ser libertado da sua apetência física pelo álcool, e isto requer frequentemente um determinado tratamento hospitalar para que se possa obter o máximo dos benefícios dos procedimentos psicológicos.
- Acreditamos, como aliás já observámos há uns anos, que a acção do álcool nestes alcoólicos crónicos é a manifestação de uma alergia, que o fenómeno da apetência só afecta este tipo de pessoas e que nunca se verifica no bebedor comum moderado. Estes casos alérgicos nunca podem usar o álcool, seja em que forma for, sem correr risco; uma vez estabelecido o hábito e apercebendo-se da sua incapacidade para o quebrar, quando já perderam a confiança em si mesmos e em qualquer valor humano, os seus problemas acumulam-se e tornam-se incrivelmente difíceis de resolver.
- O estímulo emocional de um conselho bem intencionado raramente resulta. A mensagem que pode interessar e suster estas pessoas tem de ter peso e profundidade. Em quase todos os casos, os seus ideais têm de se cimentar num poder superior a si mesmos para os levar a reconstruir as suas vidas.
- Se alguém pensar que, como psiquiatras responsáveis por um hospital para alcoólicos, parecemos um tanto sentimentais, convidamo-lo a juntar-se a nós por um tempo na linha de fogo; que vejam as tragédias, as mulheres desesperadas, os filhos pequenos; que a solução destes problemas faça parte do seu trabalho quotidiano e até mesmo dos seus momentos de descanso, e então a pessoa mais céptica não se surpreenderá que tenhamos aceite e incentivado este movimento. Sentimos, depois de muitos anos de experiência, que não descobrimos nada que tenha contribuído tanto para a reabilitação destas pessoas como o movimento altruísta que se desenvolve agora entre eles.
- Homens e mulheres bebem essencialmente porque gostam do efeito que o álcool produz. A sensação é tão insidiosa que, embora a admitam como prejudicial, não conseguem depois de um certo tempo distinguir o verdadeiro do falso. A sua vida alcoólica parece-lhes a única normal. Ficam agitados, irascíveis e insatisfeitos até poderem de novo experimentar a sensação de descontracção e bem-estar que vem imediatamente com uns copos - copos que vêem os outros tomar com impunidade. Depois de terem voltado a sucumbir ao seu desejo, como tantos fazem, e se desencadear o fenómeno da apetência, passam por todas as fases clássicas das bebedeiras, das quais saem cheios de remorsos, com a firme determinação de não voltar a beber. Isto repete-se vezes sem conta e, a não ser que uma transformação psíquica total se opere na pessoa, há poucas esperanças de recuperação.
- Por outro lado - e por mais estranho que possa parecer àqueles que não compreendem - uma vez que uma mudança psíquica tenha ocorrido, essa mesma pessoa que parecia condenada à morte, que tinha tantos problemas e perdido a esperança de jamais os resolver, repentinamente descobre que consegue facilmente controlar o seu desejo pelo álcool, sem necessitar de outro esforço a não ser o de seguir umas simples regras.
- Algumas pessoas recorreram a mim, completamente desesperadas, e disseram-me com sinceridade: "Doutor, não posso continuar assim! Tenho tudo o que preciso para dar sentido à minha vida! Tenho de parar, mas não consigo! Tem de me ajudar!"
- Confrontado com este problema, se um médico for honesto consigo mesmo, terá por vezes de sentir as suas limitações. Embora faça tudo o que está ao seu alcance, frequentemente não é suficiente. Sente-se que para se produzir esta mudança psíquica indispensável, algo mais do que o poder humano é necessário. Apesar de ser apreciável o conjunto de recuperações resultantes dos esforços psiquiátricos, nós, médicos, temos de admitir que temos obtido poucos resultados em relação ao problema no seu conjunto. Muitos casos não reagem à abordagem psicológica comum.
- Não estou de acordo com os que defendem que o alcoolismo é inteiramente uma questão de controlo mental. Conheci vários homens que tiveram de protelar determinados assuntos ou negócios durante meses, aguardando que chegasse o momento favorável para resolvê-los. Um dia ou dois antes dessa data, beberam um copo e o fenómeno da apetência sobrepôs-se imediatamente a todos os outros interesses, de tal modo que faltaram ao compromisso que era tão importante. Estes homens não estavam a beber para fugir; estavam a beber para apaziguar a apetência que estava para além do seu controlo mental.
- Há muitas situações que derivam do fenómeno do desejo incontrolável e que levam as pessoas ao sacrifício supremo das suas vidas em vez de prosseguir na luta.
- A classificação dos diferentes tipos de alcoólicos parece extremamente difícil de estabelecer e, em pormenor, está fora do âmbito deste livro. Existem naturalmente os psicopatas que são emocionalmente instáveis. Estamos todos familiarizados com este tipo de pessoas que dizem constantemente que vão deixar de beber para sempre. Sentem um arrependimento exagerado e fazem muitas resoluções mas nunca tomam decisões.
- Existe o tipo de pessoa que não está disposta a admitir que não pode beber sequer um copo. Planeia várias maneiras de beber. Muda de marca ou de lugar. Existem também aqueles que pensam sempre que, depois de passarem por um período de completa abstinência, podem voltar a beber sem perigo. Há ainda o tipo maníaco-depressivo que é talvez o menos compreendido pelos seus amigos e sobre o qual se podia escrever um capítulo inteiro.
- Depois há aqueles que são completamente normais em todos os aspectos, excepto no que se refere ao efeito que o álcool produz sobre eles. São frequentemente pessoas dotadas, inteligentes e amáveis.
- Todos estes alcoólicos e muitos outros têm um sintoma em comum: não podem começar a beber sem que se desencadeie o fenómeno da apetência. Este fenómeno, como já foi sugerido, explica-se talvez como sendo a manifestação de uma alergia que caracteriza estas pessoas e as situa numa categoria distinta. Nenhum tratamento, de entre todos os que nos são conhecidos, conseguiu removê-lo de um modo permanente. O único remédio que podemos sugerir é a abstinência total.
- Isto precipita-nos imediatamente numa controvérsia acesa. Tem-se escrito muito pró e contra sobre esta matéria, mas entre os médicos a opinião generalizada parece ser a de que a maioria dos alcoólicos crónicos está condenada.
- Qual é a solução? Talvez possa responder melhor a esta pergunta relatando uma das minhas experiências.
- Um ano antes desta experiência, um homem deu entrada para tratamento de alcoolismo crónico. Tinha-se recuperado parcialmente de uma hemorragia gástrica e parecia ser um caso de deterioração mental patológica. Tinha perdido tudo o que valia a pena na vida e só vivia, por assim dizer, para beber. Admitiu francamente e acreditava que não havia qualquer esperança para o seu caso. Depois de eliminado o álcool, comprovou-se que não havia nenhuma lesão cerebral permanente. Ele aceitou o plano descrito neste livro. Um ano depois veio ver-me e tive uma estranha sensação. Conheci-o pelo nome e reconheci em parte as suas feições, mas qualquer semelhança acabava aí. De um destroço humano trémulo, desesperado e com os nervos desfeitos, surgiu um indivíduo a transbordar de confiança em si mesmo e de boa disposição. Falei com ele um bocado sem me conseguir convencer de que o tinha conhecido antes. Para mim era um estranho e, como tal, foi-se embora. Já passou muito tempo e nunca mais voltou a beber.
- Quando sinto que preciso de um incentivo mental, penso noutro caso que me foi apresentado por um eminente médico de Nova Iorque. Este paciente tinha feito o seu próprio diagnóstico e, convencendo-se que a sua situação era irremediável, escondeu-se num celeiro abandonado disposto a morrer. Socorrido por um grupo de pessoas à sua procura, trouxeram-mo numa condição desesperada. Depois da sua reabilitação física, teve uma conversa comigo em que manifestou, com a maior franqueza, que considerava o tratamento um esforço inútil, a não ser que eu pudesse assegurar-lhe, o que ninguém tinha conseguido até aí, que um dia conseguiria ter a "força de vontade" para resistir ao impulso para beber.
- O seu problema alcoólico era de tal modo complexo e o seu estado tão depressivo, que sentimos que a então designada "psicologia moral" seria para ele a única esperança, na dúvida porém, de que mesmo isso tivesse algum efeito.
- Todavia, ele "rendeu-se" às ideias contidas neste livro. Não voltou a beber passados muitos anos. Vejo-o de vez em quando e acho-o um exemplo vivo de ser humano que dá vontade de conhecer.
- Aconselho muito seriamente todo o alcoólico a ler este livro do princípio ao fim e, embora possa começar por troçar, talvez acabe por rezar.
William Silkworth, M.D. Capítulo 1A HISTÓRIA DE BILL - Crescia a atmosfera febril de guerra na cidade de Nova Inglaterra, para onde nós, jovens oficiais de Plattsburg, fôramos destacados. Sentimo-nos lisonjeados quando os cidadãos mais importantes nos convidaram para suas casas, tratando-nos como heróis. Havia demonstrações de afecto e aplausos naquela hora de guerra: momentos sublimes com intervalos de hilariedade. Sentia-me finalmente a fazer parte da vida e no meio desta excitação descobri o álcool. Esqueci-me das sérias advertências e dos preconceitos da minha família em relação à bebida. Chegou a altura em que embarcámos para a Europa; senti-me então muito só e voltei-me de novo para o álcool.
- Desembarcámos em Inglaterra. Visitei a Catedral de Winchester. Muito comovido, saí e pus-me a passear. Uma inscrição, em verso de pé quebrado, na lápide de uma velha campa, chamou a minha atenção:
- "Aqui jaz um granadeiro de Hampshire
- que encontrou a morte
- a beber cerveja fria.
- Um bom soldado nunca é esquecido
- morra ele pelo mosquete
- ou pela caneca."
- Sinistro aviso de que não fiz caso.
- Com vinte e dois anos e veterano de guerra no estrangeiro, regressei por fim a casa. Via-me como um líder. Por alguma razão os homens da minha unidade tinham-me dado uma prova especial de estima. Com este meu talento para liderar, imaginava eu, chegaria ao topo de múltiplas empresas que eu dirigiria com a mais completa segurança.
- Tirei um curso nocturno de Direito e arranjei emprego como investigador numa companhia de seguros. A corrida para o êxito tinha começado. Eu ia provar ao mundo como era importante. O meu trabalho levou-me a Wall Street e a pouco e pouco comecei a interessar-me pelo mercado financeiro. Muitas pessoas perdiam dinheiro, mas outras faziam fortuna. E porque não eu? Estudei Economia, Comércio e Direito. Alcoólico em potência, quase chumbei no curso de Direito. Num dos exames finais estava tão bêbedo que não conseguia pensar nem escrever. Apesar de ainda não beber continuamente, a minha mulher já se mostrava apreensiva. Tínhamos longas conversas em que tentava acalmar os seus presságios, argumentando que os homens de génio concebiam os seus melhores projectos quando bêbedos e que o álcool também tinha inspirado os mais sublimes sistemas filosóficos.
- Quando acabei o curso, compreendi que Direito não era profissão para mim. O fascinante turbilhão de Wall Street já me tinha apanhado. Os meus heróis eram os grandes homens de negócios e finanças. Desta combinação de álcool e especulações, comecei a forjar uma arma que mais tarde se voltaria no seu voo contra mim como um boomerang e me faria em bocados. Vivendo modestamente, a minha mulher e eu economizámos $1000 que investimos numas obrigações então baratas e de pouca procura. Pensei acertadamente que um dia teriam uma alta cotação. Como não consegui convencer os meus amigos corretores da bolsa a encarregarem-me de fazer visitas a fábricas e respectivas administrações, a minha mulher e eu decidimos ir de qualquer maneira por conta própria. Defendia a teoria de que a maior parte das pessoas perdiam dinheiro na Bolsa por falta de conhecimento dos mercados. Mais tarde descobri ainda muitas outras razões.
- Deixámos os nossos empregos e partimos em motocicleta, com o sidecar atulhado com a tenda de campanha, cobertores, uma muda de roupa e três enormes volumes de consulta para assuntos financeiros. Os nossos amigos pensaram que se devia nomear uma comissão para averiguar a nossa saúde mental. Talvez tivessem razão. Eu tinha tido um certo êxito com a especulação e por isso tínhamos algum dinheiro, mas chegámos mesmo a trabalhar um mês numa quinta para evitar tocar no nosso pequeno capital. Foi o último trabalho manual honrado que fiz durante muito tempo. Num ano percorremos toda a parte oriental dos Estados Unidos. Ao fim desse ano, com os relatórios que enviei para Wall Street, consegui aí um lugar com direito a despesas de representação. Uma operação de Bolsa com direito de opção trouxe-me lucros de vários milhares de dólares nesse ano.
- Durante uns anos a sorte ainda semeou dinheiro e êxitos no meu caminho. Tinha triunfado. O meu critério e ideias eram seguidos e influenciavam mercados onde se transaccionavam milhões de dólares em valores. A grande vaga de prosperidade dos anos vinte estava em plena ebulição e expansão. A bebida já ocupava uma parte importante e animada na minha vida. Falava-se aos gritos nos clubes de jazz de Manhattan. Todos gastavam aos milhares e falavam de milhões. Os sensatos que troçassem e que fossem para o diabo! Arranjei um enorme círculo de amigos de ocasião.
- A minha maneira de beber começou então a tomar proporções mais graves, porque bebia durante o dia e quase todas as noites. As advertências dos meus amigos acabavam em discussões e tornei-me um solitário. Houve muitas cenas tristes no nosso sumptuoso apartamento. Não cometi propriamente infidelidades, porque para além da lealdade à minha mulher, as enormes bebedeiras evitavam-me semelhantes complicações.
- Em 1929 apanhei a febre do golf. Partimos imediatamente para o campo, a minha mulher para me aplaudir e eu para superar Walter Hagen. Porém, o álcool apanhou-me antes que eu pudesse vencer Walter Hagen. Comecei a ter tremores de manhã. O golf permitia-me beber de dia e de noite. Era divertido bater a bola pelo luxuoso campo de golf que tanto me tinha impressionado em rapaz. Arranjei um bronzeado impecável que se vê nas pessoas bem instaladas na vida. O banqueiro local observava com um cepticismo divertido o movimento de cheques avultados.
- Bruscamente, em Outubro de 1929, desencadeou-se o inferno na Bolsa de Valores de Nova Iorque. Depois de um desses dias infernais, cambaleei de um bar de hotel para um escritório de corretagem. Eram oito horas, cinco horas depois do fecho do mercado. O indicador de cotações ainda ecoava. Tinha os olhos postos num ponto da fita com a inscrição XYZ-32. De manhã tinha marcado 52. Estava arruinado assim como muitos dos meus amigos. Os jornais noticiavam pessoas a saltarem para a morte, deitando-se das torres da Alta Finança abaixo. Isso repugnava-me. Eu não iria saltar. Voltei para o bar. Os meus amigos tinham perdido vários milhões desde as dez da manhã. E daí? Amanhã seria outro dia. À medida que ia bebendo, voltava-me a feroz determinação de vencer.
- No dia seguinte, telefonei a um amigo de Montreal. Ele ainda tinha muito dinheiro e achou melhor eu ir para o Canadá. Na primavera seguinte já estávamos a levar o estilo de vida a que nos tínhamos habituado. Senti-me como Napoleão no regresso de Elba. Para mim não haveria Santa Helena! Mas o álcool apanhou-me outra vez e o meu generoso amigo teve que me largar. Desta vez estávamos arruinados.
- Fomos viver com os pais da minha mulher. Arranjei trabalho e perdi-o logo a seguir por causa de uma briga com um condutor de táxi. Felizmente, ninguém poderia prever que eu não ia ter um emprego a sério durante cinco anos, nem estar sóbrio por um só momento. A minha mulher começou a trabalhar num estabelecimento comercial e chegava a casa exausta para me encontrar bêbedo. Nos círculos da Bolsa consideravam-me um parasita indesejável.
- O álcool deixou de ser um luxo para se tornar uma necessidade. A minha dose diária eram duas garrafas de gin de fabrico caseiro, por vezes mesmo três. Em certas ocasiões em que uma pequena operação me rendia umas centenas de dólares, eu pagava as minhas dívidas nos bares e restaurantes. Esta situação prolongou-se indefinidamente e eu comecei a acordar muito cedo de manhã a tremer violentamente. Precisava de um copo cheio de gin seguido de meia dúzia de cervejas para conseguir comer qualquer coisa. Apesar disto, ainda pensava que podia controlar a situação e passava períodos sem beber que renovavam a esperança da minha mulher.
- A pouco e pouco as coisas foram de mal a pior. Um credor hipotecário tomou conta da casa, a minha sogra morreu, a minha mulher e o meu sogro adoeceram.
- Por esta altura apresentou-se-me a oportunidade de um negócio que prometia. O valor das acções tinham caído em 1932 e eu tinha conseguido interessar um grupo de pessoas na sua compra. A minha participação nos lucros seria vantajosa, mas foi então que apanhei uma tremenda bebedeira e a oportunidade escapou-me.
- Acordei. Isto tinha de parar. Percebi que nem sequer podia tomar um copo. Deixaria de beber para sempre. Antes disso, tinha feito inúmeras promessas mas, desta vez, a minha mulher via com alegria que a minha decisão era a sério. E eu estava realmente decidido.
- Pouco tempo depois voltei para casa bêbedo. Não tinha feito o menor esforço para o evitar. O que tinha acontecido à minha firme decisão? Francamente não sabia, nem sequer me tinha vindo à cabeça. Alguém tinha posto um copo à minha frente e eu bebi-o. Estaria eu doido? Pus-me a pensar, porque uma tal falta de senso comum parecia revelar isso mesmo.
- Renovando a minha resolução, tentei de novo. Passou um certo tempo e a confiança começou a ser substituída pela presunção. Já me podia até rir dos bares! Já tinha o que precisava. Um dia entrei num café para telefonar. Em menos de um segundo, dava murros no balcão do bar, perguntando-me a mim próprio o que tinha acontecido. À medida que o whisky me subia à cabeça, convencia-me a mim mesmo de que na próxima vez teria mais cuidado, mas que já agora valia mais a pena apanhar uma grande bebedeira. E assim foi.
- O remorso, o horror e o desespero da manhã seguinte são inesquecíveis. Faltava-me a coragem para lutar. A minha cabeça estava numa confusão e eu tinha um terrível sentimento de calamidade iminente. Quase não me atrevia a atravessar a rua com medo de cair e de ser atropelado por um desses camiões que circulam de madrugada, pois mal rompia o dia. Entrei num estabelecimento aberto dia e noite onde me serviram uma dúzia de cervejas que acalmaram os meus nervos encrespados. Um jornal da manhã anunciava que o mercado de valores tinha de novo ruído. Ora bem, e eu também! O mercado poderia recompor-se, mas eu não. Era uma ideia difícil de aceitar. Deveria suicidar-me? Não, por enquanto não! Uma neblina mental envadiu-me o espírito. O gin iria encarregar-se de tudo. Assim, duas garrafas e depois... o esquecimento total.
- O espírito e o corpo são dois mecanismos prodigiosos, porque os meus resistiram a esta agonia mais dois anos. Nas alturas em que o terror e a loucura me assaltavam de manhã, chegava por vezes a roubar à minha mulher o pouco dinheiro que tinha. Outras, cambaleava com tonturas para uma janela aberta ou para o armário dos remédios onde havia veneno, amaldiçoando-me por ser fraco. As fugas da cidade para o campo e do campo para a cidade eram formas de escape que a minha mulher e eu procurávamos. Houve uma noite em que a tortura mental e física foram tão infernais, que eu temi atirar-me da janela. Consegui, no entanto, arrastar o meu colchão para o andar de baixo no caso de decidir saltar de repente. Um médico veio ver-me e deu-me um sedativo forte. No dia seguinte estava a beber gin com o sedativo. Esta mistura ia dando cabo de mim. Receava-se que eu enlouquecesse, e eu também. Comia pouco ou quase nada quando bebia e tinha dezoito quilos a menos do peso normal.
- O meu cunhado é médico e graças a ele e à minha mãe dei entrada num hospital de renome nacional para reabilitação mental e física de alcoólicos. Sob o efeito do tratamento de beladona, o meu cérebro desanuviou-se. A hidroterapia e os exercícios ligeiros ajudaram bastante, mas o melhor de tudo foi conhecer um médico bondoso que me explicou que, embora me comportasse como uma pessoa egoísta e caprichosa, eu estava gravemente doente física e mentalmente.
- Aliviou-me de certo modo saber que a vontade dos alcoólicos fica espantosamente debilitada quando se trata de combater o álcool, apesar de ser forte noutros aspectos. Estava explicado o meu comportamento incrível apesar da vontade desesperada de parar de beber. Uma vez compreendendo-me a mim próprio, embarquei de novo em altas esperanças. Durante três a quatro meses, as coisas andaram bem. Ia à cidade com regularidade e até ganhei algum dinheiro. A resposta estava seguramente aí: o autoconhecimento.
- Mas não estava, porque chegou o dia temível em que voltei a beber. O declínio da minha saúde moral e física caiu a pique como num salto de ski. Ao fim de um certo tempo, voltei para o hospital. Parecia-me que era o fim, que a cortina se fechava. Informaram a minha mulher, já exausta e desesperada, que tudo terminaria por uma deficiência cardíaca durante um acesso de delirium tremens ou que o meu cérebro ficaria irreversivelmente afectado dentro de um ano. Ela teria em breve que entregar-me a um asilo ou a uma agência funerária.
- Não era preciso dizerem-me isto. Eu sabia e quase acolhia a ideia com agrado. Foi um golpe devastador para o meu orgulho. Eu que tinha uma ideia tão extraordinária de mim próprio, dos meus talentos e da minha aptidão para vencer obstáculos, estava por fim encurralado. Agora tinha que mergulhar na obscuridade, juntando-me ao cortejo interminável de bêbedos que me tinham precedido. Pensei na minha pobre mulher. Apesar de tudo tínhamos sido muito felizes. O que eu não daria para fazer reparações? Mas agora estava tudo acabado.
- Não há palavras para descrever a solidão e o desespero que conheci no lamaçal amargo da autopiedade; areias movediças cercavam-me por todos os lados. Eu tinha encontrado o meu rival e tinha sido esmagado. O álcool dominava-me por completo.
- A tremer, saí do hospital um homem despedaçado. O medo manteve-me sem beber durante um tempo. Depois voltou a loucura insidiosa da primeira bebida e, em 1934, no Dia do Armistício, recomecei a beber. Resignaram-se todos perante a certeza de que eu teria de ser internado ou me encaminharia a passos largos para um fim desgraçado. Como é tudo tão escuro antes do amanhecer! Na realidade isto foi o princípio da minha última devassidão. Eu seria em breve catapultado para o que eu gosto de designar como a quarta dimensão da existência. Iria conhecer uma felicidade, uma paz e um sentido de utilidade num modo de vida que se torna cada vez mais maravilhoso à medida que o tempo passa.
- Por volta do fim desse Novembro deprimente, estava sentado na cozinha a beber. Com uma certa satisfação pensei que havia bastante gin escondido por toda a casa que chegasse para essa noite e para o dia seguinte. A minha mulher estava a trabalhar. Perguntava a mim mesmo se teria coragem de esconder uma garrafa inteira de gin à cabeceira da cama. Ia precisar dela antes do amanhecer.
- O meu devaneio foi interrompido pelo som do telefone. Era a voz alegre de um velho amigo de escola a perguntar se me podia vir ver. Ele estava sóbrio. Tanto quanto eu me lembrava, há anos que ele não vinha a Nova Iorque nesse estado. Fiquei surpreendido, porque se dizia que o tinham internado por demência alcoólica. Perguntei-me a mim próprio como é que ele teria escapado. É claro que ele ficaria para jantar e eu depois poderia beber com ele à vontade. Sem me preocupar com o seu bem-estar, pensei exclusivamente em reviver o espírito dos velhos tempos. Lembrei-me do episódio em que tínhamos fretado um avião para culminar uma bebedeira! A sua vinda era como um oásis no triste deserto de futilidade. Era isso mesmo: um oásis! Os bebedores são assim.
- A porta abriu-se e ali estava ele com um ar fresco e radioso. Havia qualquer coisa de indefinível no seu olhar. Estava inexplicavelmente diferente. O que lhe teria acontecido?
- À mesa servi-lhe um copo. Ele não o aceitou. Desapontado mas com curiosidade, perguntava-me o que se passaria com ele. Não era o mesmo.
- "Então, o que se passa?", perguntei-lhe.
- Olhou-me a direito nos olhos. Sem rodeios e a sorrir, disse: "Tenho religião".
- Fiquei pasmado. Com que então era isso: o verão passado, doido por causa do álcool e agora, presumia eu, tontinho com a religião. Tinha aquele ar sonhador. Sim, não havia dúvida de que o homem estava alucinado. Deixá-lo-ia pregar à vontade! Além disso, o meu gin iria durar mais do que o seu sermão.
- Mas ele não fez sermão nenhum. De um modo muito natural, contou como dois homens se tinham apresentado no tribunal para persuadir o juiz a suspender a sua sentença. Tinham exposto uma ideia religiosa muito simples e um programa prático de acção. Isto tinha-se passado há dois meses e o resultado era evidente. Funcionava!
- Ele tinha vindo para me passar a sua experiência - se eu quisesse aproveitá-la. Senti-me assustado mas interessado. É claro que estava interessado. Tinha de estar porque estava desesperado.
- Falou durante horas. Memórias da minha infância vieram-me à ideia. Parecia estar sentado na encosta da colina, como naqueles domingos tranquilos, a ouvir a voz do pregador. Recordei a promessa de temperança que nunca cumpri. Lembrei-me do desprezo sem malícia do meu avô para com pessoas da igreja e para com os seus modos de proceder; da insistência com que afirmava que existia uma música celestial, mas negando ao pregador o direito de lhe impor o modo de como a ouvir; da coragem com que falava de tudo isto mesmo antes de morrer. Estas recordações surgiam do passado e faziam-me sentir um nó na garganta.
- Voltou-me à ideia aquela visita à velha catedral de Winchester durante a guerra.
- Tinha sempre acreditado num Poder superior a mim mesmo. Tinha reflectido muitas vezes sobre estas questões. Eu não era ateu. Poucas pessoas o são na realidade, porque isso implica uma fé cega na estranha teoria de que o universo surgiu do nada e se precipita sem sentido para o nada. Os meus heróis da inteligência, os químicos, os astrónomos, mesmo os evolucionistas sugeriam a presença de vastas leis e forças em acção no universo. Apesar de muitas indicações em contrário, eu tinha poucas dúvidas sobre a existência de um poderoso desígnio e ritmo subjacentes a tudo. Como é que poderia haver leis tão precisas e imutáveis se não houvesse uma Inteligência? Eu tinha simplesmente de acreditar num Espírito do Universo para além do tempo e do espaço. Mas não conseguia ir mais longe.
- Era justamente neste ponto que me afastava dos padres e das religiões do mundo. Quando falavam de um Deus pessoal que era amor, uma força sobrenatural e orientação, irritava-me e fechava-se-me o espírito a tal teoria.
- Concedia a Cristo o facto de ser um grande homem, que não tinha sido seguido de muito perto por aqueles que O invocavam. O seu ensinamento moral era excelente. Para mim, tinha adoptado aquilo que me parecia mais conveniente e não muito difícil e ignorava o resto.
- Causavam-me horror as guerras, os incêndios e as intrigas em nome de conflitos religiosos. Fazendo um balanço, duvidava seriamente de se as religiões da humanidade tinham servido para alguma coisa. A julgar pelo que tinha visto na Europa e desde então, o poder de Deus em questões humanas era insignificante e a Irmandade dos homens uma farsa implacável. Se existia um Diabo, ele parecia dominar o Universo e, a mim, dominava-me de certeza absoluta.
- Mas o meu amigo, sentado à minha frente, afirmava categoricamente que Deus tinha feito por ele o que ele não tinha conseguido fazer por si próprio. A sua vontade humana tinha falhado. Os médicos tinham-no declarado irrecuperável. A sociedade estava prestes a encarcerá-lo. Tal como eu, ele tinha admitido a derrota total. Então, ele fora literalmente ressuscitado dos mortos, subitamente retirado dum monte de escombros humanos e elevado a um nível de vida que ele jamais tinha conhecido!
- Este poder tinha origem nele? Claro que não. Não tinha existido nele mais poder do que havia em mim naquele momento, e em mim, não havia absolutamente nenhum.
- Foi o que me desarmou. Começou a parecer-me que as pessoas religiosas afinal tinham razão. Eu presenciava algo a actuar num coração humano que tinha realizado o impossível. Nesse mesmo momento revi drasticamente as minhas ideias sobre milagres. Tanto pior para as minhas noções do passado; à minha frente, do outro lado da mesa, estava um milagre. Ele proclamava em voz alta boas novas.
- Apercebi-me de que a transformação do meu amigo era muito mais do que uma simples reorganização interior. Ela estava alicerçada numa base diferente. As suas raízes mergulhavam num solo novo.
- Apesar do exemplo vivo do meu amigo, havia ainda em mim vestígios dos meus velhos preconceitos. A palavra Deus continuava a inspirar-me uma certa antipatia, e este sentimento agravava-se perante a ideia de um Deus pessoal. Esta noção desagradava-me. Podia aceitar conceitos como os de uma Inteligência Criadora, um Espírito Universal ou Espírito da Natureza, mas opunha-me à noção de um Czar dos Céus, por mais carinhoso que fosse o seu reino. Desde então tenho falado com dezenas de pessoas que partilham as mesmas ideias.
- O meu amigo sugeriu o que então parecia uma ideia original, "Porque não escolhes a tua própria concepção de Deus?"
- Esta afirmação tocou-me muito fundo. Derreteu a montanha de gelo intelectual, à sombra da qual tinha vivido e tremido durante muitos anos. Estava por fim à luz do sol.
- Era só uma questão de ter boa vontade para crer num Poder superior a mim mesmo. Não era preciso mais nada para começar. Percebi que o crescimento podia partir deste ponto. Com base numa total boa vontade poderia edificar o que via no meu amigo. Conseguiria? Claro que sim!
- Deste modo convenci-me de que Deus se preocupa connosco, seres humanos, desde que O queiramos suficientemente. Ao fim de muito tempo, vi, senti e acreditei. A camada de orgulho e preconceito que me tapava os olhos desapareceu. Surgiu-me um novo mundo.
- O verdadeiro significado da minha experiência na Catedral tornou-se-me então claro. Por um breve instante tinha sentido a necessidade e o desejo de Deus. Tinha tido a humilde vontade de O encontrar, e Ele veio. Mas em breve, o sentimento da sua presença dissipou-se com os clamores mundanos, essencialmente com os que me habitavam. E assim tinha sido desde sempre. Que cegueira a minha.
- No hospital tiraram-me o álcool pela última vez. O tratamento parecia indicado porque tinha indícios de delirium tremens.
- Aí ofereci-me humildemente a Deus, tal como eu então O concebia, para que fizesse de mim o que quisesse. Pus-me sem reservas sob a Sua protecção e orientação. Admiti pela primeira vez que só por mim não era nada; que sem Ele estava perdido. Sem medo encarei os meus pecados e dispus-me a que o meu novo Amigo os removesse pela raiz. Desde então nunca mais voltei a beber.
- O meu companheiro de escola foi visitar-me e pu-lo inteiramente a par dos meus problemas e deficiências. Fizemos uma lista das pessoas que eu tinha magoado e em relação às quais tinha ressentimentos. Manifestei a minha completa disposição para abordar essas pessoas, admitindo os meus erros. Nunca as deveria criticar. Tinha de reparar os danos causados da melhor maneira possível.
- Tinha de pôr à prova a minha maneira de pensar com a nova tomada de consciência de Deus. Deste modo, o senso comum tornar-se-ia pouco comum. Deveria ficar quieto sempre que em dúvida, pedindo orientação e força para enfrentar os problemas como Ele quisesse. Nunca devia rezar para mim próprio, excepto na medida em que os meus pedidos tivessem utilidade para outros. Só assim podia esperar receber e então seria em abundância.
- O meu amigo garantiu-me que, quando fizesse tudo isto, eu entraria numa nova relação com o meu Criador; que eu teria os princípios de um modo de vida que eram a resposta para todos os meus problemas. A crença no poder de Deus, acrescida de suficiente boa vontade, honestidade e humildade para estabelecer e manter a nova ordem das coisas, eram os requisitos básicos.
- Era simples mas não fácil; havia um preço a pagar. Significava a destruição do egocentrismo. Tinha de me virar em tudo para o Pai da Luz que nos dirige a todos nós.
- Eram propostas revolucionárias e drásticas mas, a partir do momento em que eu as aceitei plenamente, o efeito foi fulminante. Tive um sentimento de vitória, seguido por uma paz e serenidade que nunca tinha conhecido. Senti uma enorme confiança. Senti-me elevado como se o ar puro do cimo de uma montanha me envadisse. Deus manifesta-se à maioria dos homens de um modo gradual, mas o Seu impacto sobre mim foi súbito e profundo.
- Por um instante fiquei assustado e chamei o meu amigo, o médico, para lhe perguntar se estava demente. Ele ouviu-me espantado à medida que eu ia falando.
- Por fim disse-me abanando a cabeça: "Aconteceu-lhe qualquer coisa que eu não compreendo, mas é melhor agarrar-se a isso. É tudo preferível ao que foi até aqui". Este bom médico vê agora muitos homens que tiveram experiências semelhantes. Ele sabe que são experiências reais.
- Enquanto estava no hospital, veio-me à ideia que havia milhares de alcoólicos desesperados que ficariam felizes de ter o que me tinha sido dado tão gratuitamente. Talvez eu pudesse ajudar uns tantos. Eles, por sua vez, poderiam trabalhar com outros.
- O meu amigo tinha insistido na absoluta necessidade de demonstrar estes princípios em todos os actos da minha vida. Impunha-se em particular trabalhar com outros, como ele tinha trabalhado comigo. A fé sem obras é uma fé morta, disse-me ele. E como isto é terrivelmente verdade no caso dos alcoólicos! Porque se um alcoólico deixa de aperfeiçoar e ampliar a sua vida espiritual através do trabalho e sacrifício pelos outros, não conseguirá sobreviver a certas provas e momentos difíceis que o esperam. Se não trabalhar nisso, voltará seguramente a beber e, se beber, morrerá certamente. A fé então estaria morta. Connosco é precisamente assim.
- A minha mulher e eu entregámo-nos com entusiasmo à ideia de ajudar outros alcoólicos a encontrarem uma solução para os seus problemas. Foi uma sorte, porque os meus antigos sócios continuaram cépticos por um ano e meio, durante o qual arranjei pouco trabalho. Não estava ainda muito bem nessa altura. Sentia-me atormentado por vagas de autopiedade e ressentimentos, que por vezes me levaram quase a beber de novo, mas em breve descobri que nas alturas em que praticamente tudo falhava, o trabalho com outros alcoólicos salvava o dia. Fui muitas vezes desesperado ao meu velho hospital. Ao falar aí com alguém, sentia-me surpreendentemente reconfortado e de pé outra vez. É um modo de vida que funciona em momentos difíceis.
- Começámos a fazer muitos amigos e criou-se uma comunidade entre nós de que é maravilhoso fazer parte. Sentimos verdadeiramente a alegria de viver, mesmo sob pressão e em dificuldades. Tenho visto centenas de famílias a seguirem um caminho com sentido; tenho visto comporem-se as situações familiares mais complicadas; vi dissiparem-se hostilidades e rancores de todos os géneros. Vi pessoas saírem de asilos e retomarem o seu lugar vital na família e na comunidade. Homens de negócios e de outras profissões recuperaram as suas posições. Praticamente não há quase nenhuma forma de dificuldade e de desgraça que não se tenha superado entre nós. Numa cidade do Oeste e arredores contamos mil pessoas entre os nossos membros e seus familiares. Reunimo-nos com frequência para que recém-chegados possam encontrar a fraternidade que procuram. Nestas reuniões informais podem frequentemente ver-se 50 a 200 pessoas. Estamos a crescer em número e influência.
- Um alcoólico com os copos é um ser desagradável. As nossas lutas com eles variam do extenuante, passando pelo cómico até ao trágico. Um pobre diabo suicidou-se em minha casa. Ele não conseguiu ou não quis ver o nosso modo de vida.
- Porém, há uma grande dose de divertimento em tudo isto. Julgo até que algumas pessoas se poderiam escandalizar com o nosso aparente mundanismo e frivolidade. Mas por detrás disso há uma profunda seriedade. A fé tem de funcionar em nós e através de nós vinte e quatro horas por dia ou morremos.
- A maioria de nós sente que já não precisa de procurar a Utopia. Temo-la entre nós, justamente aqui e agora. Em cada dia que passa, a simples conversa que o meu amigo teve comigo na cozinha multiplica-se num círculo crescente de paz na Terra e de boa vontade para com os homens.
Capítulo 2HÁ UMA SOLUÇÃO - Nós, os Alcoólicos Anónimos, conhecemos milhares de homens e mulheres, que já estiveram tão desesperados como Bill. Quase todos recuperaram. Resolveram o seu problema de álcool.
- Somos Americanos típicos. Entre nós estão representados todos os sectores deste país e muitos géneros de actividades, assim como diversos meios políticos, económicos, sociais e religiosos. Somos pessoas que normalmente não se misturariam. Mas existe entre nós uma fraternidade, uma amizade e uma compreensão que são indescritivelmente maravilhosas. Somos como os passageiros de um grande navio depois de termos sido salvos dum naufrágio, em que a camaradagem, o contentamento e a democracia percorrem o barco desde a terceira classe até à mesa do comandante. Mas ao contrário dos sentimentos dos passageiros do navio, a nossa alegria por termos escapado ao desastre não diminui ao seguirmos cada um o seu caminho. O sentimento de termos partilhado um perigo comum é um dos elementos do poderoso elo que nos une. Porém, isso só por si não nos manteria unidos como estamos agora.
- O facto extraordinário para cada um de nós é de termos descoberto uma solução comum. Temos uma saída na qual podemos estar absolutamente de acordo e sobre a qual nos é possível associarmo-nos numa acção fraterna e harmoniosa. Esta é a grande novidade que este livro leva àqueles que sofrem de alcoolismo.
- Uma doença deste género - e chegámos à conclusão de que é uma doença - afecta as pessoas que nos rodeiam como nenhuma outra doença humana. Se uma pessoa tiver um cancro, todos sentem pena mas ninguém sente raiva ou fica magoado. Com a doença do alcoolismo as coisas não se passam assim, porque arrasta com ela a aniquilação de tudo o que vale a pena na vida. Abrange todos aqueles cujas vidas estão de algum modo relacionadas com a pessoa que sofre. Acarreta discórdias, terríveis ressentimentos, insegurança económica, amigos e empregadores descontentes, vidas distorcidas de crianças inocentes, mulheres e pais pesarosos - e esta lista podia continuar indefinidamente.
- Esperamos que este livro informe e dê ânimo àqueles que estão ou possam vir a estar afectados e que são muitos.
- Psiquiatras extremamente competentes, que têm lidado connosco, têm achado por vezes impossível convencer um alcoólico a discutir sem reservas a sua situação. E, por mais estranho que pareça, as mulheres, pais e amigos íntimos acham-nos geralmente ainda mais inacessíveis do que os psiquiatras e médicos.
- Mas um ex-bebedor que encontrou esta solução para o seu problema e que está adequadamente equipado com factos sobre si próprio, consegue geralmente ganhar a inteira confiança de outro alcoólico em poucas horas. Até se chegar a um tal entendimento, pouco ou nada se consegue fazer.
- O facto de esta abordagem ser feita por uma pessoa que teve a mesma dificuldade, que sabe indiscutivelmente do que está a falar, que em todo o seu comportamento revela ao potencial membro que é a pessoa com a resposta certa, que a sua atitude não tem nada de moralista mas sim a de querer sinceramente ajudar; e que não há quotas a pagar, não existem interesses pessoais envolvidos, ninguém a quem agradar, nenhuns sermões para aturar - são, em nossa opinião, as condições que parecem conduzir a resultados positivos. Muitas pessoas, depois de terem sido abordadas desta maneira, levantam-se da cama e voltam a andar.
- Nenhum de nós se dedica exclusivamente a este trabalho, nem achamos que isso iria contribuir para uma maior eficácia se o fizéssemos. Para nós, deixar de beber é apenas um começo. Uma demonstração prática muito mais importante dos nossos princípios surge-nos nos nossos respectivos lares, empregos e ocupações. Todos nós dedicamos grande parte do nosso tempo livre ao tipo de trabalho que vamos descrever. Alguns têm a sorte de estar numa situação que lhes permite dedicar quase todo o seu tempo a esta actividade.
- Se continuarmos pelo caminho que estamos a seguir, não há dúvida de que os benefícios serão muitos, mas só teremos aflorado a superfície do problema. Aqueles de nós que vivem em grandes cidades sentem-se derrotados perante a ideia de que muito perto de nós centenas caem diariamente no esquecimento. Muitos poderiam recuperar se tivessem a oportunidade que nos foi dada. Como é que poderemos então oferecer o que nos foi dado tão livremente?
- Optámos por publicar um livro anónimo apresentando o problema como o encaramos. Para isso, contribuímos com a nossa experiência e conhecimento combinados, o que nos permite oferecer um programa útil para qualquer pessoa preocupada com um problema de bebida.
- Terão necessariamente que se abordar questões de ordem médica, psiquiátrica, social e religiosa. Temos consciência de que estas questões são de si controversas. Nada nos seria mais agradável do que escrever um livro isento de qualquer motivo de controvérsia ou discussão. Faremos todo o possível por alcançar esse objectivo. A maior parte de nós entende que a verdadeira tolerância em relação aos defeitos e pontos de vista alheios, assim como o respeito pelas suas opiniões, são atitudes que nos tornam mais úteis para os outros. As nossas próprias vidas, como ex-bebedores, dependem da nossa constante atenção para com os outros e da maneira como os podemos ajudar em necessidade.
- Já se deve ter posto ao leitor a pergunta: porque é que ficámos tão doentes com o álcool. Sem dúvida que terá curiosidade em descobrir como e porquê nos recuperámos de uma condição mental e física irremediável, contrariamente à opinião de especialistas. Se é alcoólico e quer sair dessa condição, possivelmente já terá perguntado: "O que tenho de fazer?"
- O propósito deste livro é responder concretamente a essa pergunta. Contaremos o que nós próprios fizemos. Antes porém de entrarmos numa análise detalhada, convém resumir alguns pontos, como nós os vemos.
- Quantas vezes nos disseram: "Eu posso beber ou simplesmente não beber. Porque é que ele não pode?"; "Se não bebes como um senhor, porque não desistes?"; "Aquele sujeito não sabe beber"; "Porque não experimentas beber cerveja e vinho?"; "Deixa as bebidas fortes"; "Ele não tem força de vontade suficiente"; "Ele podia parar, se quisesse"; "É uma rapariga tão encantadora, que ele devia parar por causa dela"; "O médico disse-lhe que morria se continuasse a beber, mas lá está ele outra vez com uma grande bebedeira".
- Isto são comentários vulgares que se ouvem com frequência relativamente a pessoas que bebem, mas por detrás há um mundo de ignorância e de falta de compreensão. Percebemos bem que estas observações se referem a pessoas cujas reacções são muito diferentes das nossas.
- Os bebedores moderados têm pouca dificuldade em deixar de beber por completo se tiverem uma boa razão para isso. Podem beber ou simplesmente deixar de beber.
- Também existe um outro tipo de pessoa: a que bebe em excesso. Pode ter o hábito de tal modo arreigado que se deteriora a pouco e pouco física e mentalmente. Pode provocar-lhe uma morte prematura. Mas se houver um motivo suficientemente forte - pouca saúde, uma paixão, mudança de ambiente ou o aviso de um médico - ela consegue parar ou beber moderadamente, embora possa achar difícil ou complicado e inclusivamente precisar de apoio clínico.
- Mas o que acontece com o verdadeiro alcoólico? Pode começar por ser um bebedor moderado; pode ou não tornar-se num bebedor excessivo com continuidade, mas numa determinada fase do seu percurso, acaba por perder completamente o controlo sobre o seu consumo de bebida cada vez que começa a beber.
- É este género de pessoa que causa confusão, especialmente pela sua falta de controlo. Quando bebe faz coisas absurdas, incríveis e trágicas. É um verdadeiro Dr. Jekyll e Mr.Hyde. Raramente fica num grau médio de intoxicação alcoólica. Está sempre num estado de bebedeira mais ou menos louca. Quando bebe, o seu comportamento assemelha-se muito pouco ao seu normal. Pode ser uma das melhores pessoas do mundo, mas se começa a beber, torna-se habitualmente repugnante e mesmo perigosamente anti-social. Tem uma propensão notável para se embebedar geralmente nas alturas menos oportunas e, muito em particular, se tiver que tomar uma importante decisão ou um compromisso a cumprir. Manifesta com frequência uma enorme sensatez e equilíbrio em relação a tudo, excepto ao álcool, e a esse respeito revela uma incrível desonestidade e egoísmo. É geralmente dotada de faculdades, talentos e aptidões especiais e tem uma carreira prometedora à sua frente. Utiliza os seus dons para construir um futuro brilhante para a sua família e para si mesma, mas depois tudo se desmorona com uma série de bebedeiras sem sentido. É o tipo de pessoa que se deita num estado de intoxicação alcoólica tão grande que tem de dormir vinte e quatro horas de seguida mas que, na manhã seguinte, anda freneticamente à procura da garrafa que já não sabe onde pôs na noite anterior. Pode ter álcool escondido por toda a casa, se se puder dar a esse luxo, para garantir que ninguém lhe esgote toda a reserva, deitando-a pelo cano abaixo. À medida que a situação se agrava, começa a utilizar uma combinação de sedativos potentes e álcool para acalmar os nervos de modo a poder ir trabalhar. Então chega o dia em que isso já não resulta e volta de novo a embebedar-se. Talvez vá mesmo a um médico que lhe dê morfina ou qualquer outro sedativo para lhe reduzir o sofrimento. Começa então a dar entrada em hospitais e casas de saúde.
- Isto não é de maneira nenhuma um quadro exaustivo do verdadeiro alcoólico, uma vez que os nossos padrões de comportamento variam, mas esta descrição deve retratá-lo de um modo geral.
- Porque é que ele se comporta assim? Se centenas de experiências lhe provaram que uma bebida significa outro desastre com tudo o que acarreta de sofrimento e humilhação, porque é ele que toma esse primeiro copo? Porque é que ele não consegue ficar sem beber? O que é que aconteceu ao seu bom senso e força de vontade de que ele ainda dispõe noutros aspectos?
- Talvez nunca se consiga responder inteiramente a estas perguntas. As opiniões divergem consideravelmente quanto à razão pela qual o alcoólico reage diferentemente doutras pessoas. Não sabemos bem por que razão, uma vez atingido um certo ponto, pouco resta a fazer por ele. Não conseguimos responder a este enigma.
- Sabemos que, enquanto o alcoólico se mantém afastado da bebida, como lhe pode acontecer por meses ou anos, ele reage como qualquer outra pessoa. Temos igualmente a certeza de que uma vez que começa a beber, por pouco que seja, acontece algo tanto de físico como mental, que se torna praticamente impossível para ele parar. A experiência de qualquer alcoólico confirmará isto amplamente.
- Estas observações seriam académicas e sem sentido se o nosso amigo nunca tomasse o primeiro copo, pondo assim o terrível ciclo em movimento. Por consequência, o problema essencial do alcoólico centra-se mais propriamente na sua mente do que no seu corpo. Se lhe perguntar porque começou com a sua última bebedeira, a probabilidade é que lhe apresente um entre mil alibis. Por vezes estas desculpas são de certo modo plausíveis, mas nenhuma delas faz sentido perante a devastação causada pelas bebedeiras do alcoólico. Assemelham-se à filosofia da pessoa que tendo uma enxaqueca, bate com um martelo na cabeça para anestesiar a dor. Se se chamar a atenção de um alcoólico para este raciocínio absurdo, ele mostrar-se-á indiferente ou ficará irritado, negando-se a falar.
- Uma vez por outra, ele pode até dizer a verdade. E a verdade, por mais estranho que pareça, é que ele, tal como você, não faz a mais pequena ideia por que bebeu o primeiro copo. Alguns bebedores arranjam pretextos que lhes servem a maior parte das vezes, mas no fundo eles não sabem realmente por que o fizeram. Uma vez que esta doença se instala em definitivo, tornam-se umas pessoas desconcertantes. Agarram-se obsessivamente à ideia de que por um processo qualquer, num determinado dia, hão-de ganhar a parada, mas suspeitam frequentemente que já a perderam à partida.
- Poucos se apercebem como isto é verdade. De um modo vago, as famílias e amigos apercebem-se de que estes bebedores não são normais, mas todos aguardam com esperança o dia em que o paciente saia da sua letargia e aplique a sua força de vontade.
- A verdade trágica é que se essa pessoa é realmente alcoólica, esse dia feliz pode não chegar. Ela perdeu o controlo. Num determinado momento do seu percurso alcoólico, entra numa fase em que o mais forte desejo para deixar de beber é absolutamente inútil. Esta trágica situação surge em quase todos os casos, muito antes sequer de se suspeitar dela.
- O facto é que, por razões ainda obscuras, a maior parte dos alcoólicos perdeu a capacidade de escolher quando se trata de beber. O que chamamos a nossa força de vontade torna-se praticamente inexistente. Somos incapazes, em determinadas alturas, de consciencializar com a necessária nitidez a recordação do sofrimento e humilhação de apenas há uma semana ou um mês atrás. Ficamos sem defesa perante a primeira bebida.
- As consequências praticamente inevitáveis que daí resultam ao tomar-se nem que seja um copo de cerveja, não vêm ao espírito para nos deter. Se estes pensamentos ocorrem, eles são nebulosos e facilmente suplantados pela velha ideia já gasta, de que desta vez poderemos comportar-nos como qualquer pessoa. É um completo fracasso do tipo do instinto de defesa que impede uma pessoa de pôr a mão em cima dum fogão quente.
- O alcoólico pode querer convencer-se da maneira mais despreocupada: "Desta vez não me vou queimar, vão ver!" Ou talvez nem chegue mesmo a pensar de todo. Quantas vezes nos aconteceu começarmos a beber deste modo despreocupado, para depois do terceiro ou quarto copo, darmos murros no balcão do bar e dizer para nós mesmos: "Santo Deus, como é que comecei outra vez?", para pensar logo de seguida, "Ora, hei-de parar depois do sexto." Ou então, "Para quê, agora já não vale a pena".
- Quando este tipo de raciocínio se implanta de vez numa pessoa com tendências alcoólicas, ela coloca-se com toda a probabilidade numa situação que está para além da ajuda humana e, a não ser que a internem, certamente morre ou enlouquece para sempre. Legiões de alcoólicos no decurso da História confirmaram estes factos duros e atrozes. Mas haveria ainda outros tantos milhares de casos convincentes que teriam seguido o mesmo caminho, se não fosse pela graça de Deus, porque muitos são os que querem parar de beber e não conseguem.
- Há uma solução. Quase nenhum de nós gostou de se auto-examinar, renunciar ao seu próprio orgulho e confessar os seus defeitos, que este processo impõe para um resultado com êxito. Vimos porém que resultava efectivamente com outros e tivemos de reconhecer a inutilidade e futilidade da vida que tínhamos levado. Portanto, quando fomos abordados por aqueles que tinham resolvido o problema, só tivemos que agarrar o simples conjunto de instrumentos espirituais posto à nossa disposição. Descobrimos novos horizontes e fomos projectados para uma quarta dimensão da existência, da qual nunca sequer tínhamos suspeitado.
- O facto importante consiste simplesmente em que tivemos experiências espirituais profundas e eficazes que revolucionaram a nossa atitude global perante a vida, os outros e o universo de Deus. O facto central das nossas vidas é actualmente a certeza absoluta de que o Criador entrou nos nossos corações e nas nossas vidas de uma maneira verdadeiramente milagrosa. Ele começou a fazer por nós o que nunca conseguimos fazer sozinhos.
- Se você é verdadeiramente alcoólico como nós, cremos que não há soluções intermédias. Vimo-nos numa situação em que a vida estava a tornar-se impossível e, se tivéssemos entrado na região donde não há retorno por meios humanos, só nos restavam duas alternativas: ou continuar até ao fim, procurando esquecer tanto quanto possível a nossa intolerável condição, ou então aceitar ajuda espiritual. Escolhemos esta via porque quisemos honestamente e estávamos dispostos a fazer o esforço exigido.
- Um certo Americano, homem de negócios com talento, bom senso e carácter, andou durante anos de hospital em hospital. Tinha consultado os psiquiatras mais reputados dos Estados Unidos. Depois deslocou-se à Europa, entregando-se aos cuidados de um eminente médico (o psiquiatra, Dr. Jung) que o tratava. Embora a experiência o tivesse tornado céptico, terminou o tratamento com uma confiança invulgar. Física e mentalmente a sua condição era excepcionalmente boa. Acreditava em particular que tinha adquirido um conhecimento de tal modo profundo dos mecanismos internos da sua mente e das suas motivações ocultas que a recaída era impensável. Em pouco tempo porém voltou a embebedar-se. Ainda mais desconcertante era o facto de não conseguir explicar a sua recaída de uma maneira plausível.
- Deste modo voltou de novo ao médico, que ele admirava, e perguntou-lhe sem rodeios por que não conseguia recuperar. Ele queria acima de tudo recuperar o domínio de si próprio. Parecia bastante racional e equilibrado em relação a outros problemas. Porém, em relação ao álcool não tinha o menor controlo. Porquê?
- Suplicou ao médico que lhe dissesse toda a verdade e ele disse-lhe. Na opinião do médico, ele era um caso completamente perdido. Nunca poderia recuperar a sua posição na sociedade e teria que se fechar a sete chaves ou contratar um guarda-costas se quisesse viver muito tempo. Esta foi a opinião do grande médico.
- Mas este homem ainda está vivo e é um homem livre. Não precisa de guarda-costas nem está internado. Pode ir para qualquer parte do mundo, como qualquer pessoa livre, sem medo que lhe aconteça uma desgraça, na condição de ter a boa vontade para manter uma determinada atitude simples.
- Alguns dos nossos leitores alcoólicos podem pensar que lhes é possível dispensar a ajuda espiritual. Mas deixem-nos contar o resto da conversa que o nosso amigo teve com o médico.
- O médico disse-lhe: "Você tem a mentalidade de um alcoólico crónico. Em casos de estados mentais semelhantes ao seu, nunca vi uma única recuperação". O nosso amigo sentiu como se as portas do inferno se fechassem sobre si com estrondo.
- Perguntou ao médico: "Não há nenhuma excepção?"
- "Sim", respondeu o médico, "há. Tem havido excepções em casos como o seu desde tempos remotos. Uma vez por outra, pontualmente, alguns alcoólicos têm tido o que se designa por experiências espirituais profundas. Considero que estas ocorrências constituem fenómenos. Produzem-se sob a forma de enormes mudanças e reajustes emocionais. Ideias, emoções e atitudes que tinham constituído as forças orientadores das vidas destas pessoas são subitamente postas de lado, para ceder a sistemas inteiramente novos de conceitos e motivos que passam a prevalecer. Com efeito, tenho estado a tentar produzir em si um reajuste emocional deste tipo. Tenho empregado estes métodos com muitas pessoas e obtido êxito, mas nunca consegui um bom resultado com alcoólicos do seu género."
- Ao ouvir isto, o nosso amigo sentiu um certo alívio porque, pensou ele, apesar de tudo era um bom praticante da sua religião. Esta esperança foi contudo derrotada pela afirmação do médico, ao dizer-lhe que, embora as suas convicções religiosas fossem boas, no seu caso não correspondiam à experiência espiritual fundamental necessária.
- Este era o terrível dilema em que o nosso amigo se encontrava, quando teve a extraordinária experiência que, como já se disse, o tornou um homem livre.
- Por nosso lado, procurámos a mesma saída com todo o desespero de uma pessoa a afogar-se. O que parecia a princípio ser uma frágil cana revelou-se ser a generosa e poderosa mão de Deus. Uma nova vida foi-nos dada ou, se se prefere, "um sentido para viver" que realmente resulta.
- O eminente psicólogo americano, William James, no seu livro "Varieties of Religious Experience", enuncia um grande número de vias pelas quais se encontra Deus. Não é nossa intenção convencer quem quer que seja de que só existe uma via pela qual se adquire fé. Se o que aprendemos, sentimos e vimos tem algum sentido, isso quer dizer que todos nós, independentemente de raça, credo ou cor, somos filhos de um Criador vivo com o qual podemos estabelecer uma relação baseada em termos simples e compreensíveis, desde que tenhamos suficiente boa vontade e honestidade para tentar fazê-lo. Os que têm convicções religiosas não encontrarão aqui nada que possa colidir com as suas crenças ou práticas. Entre nós não existe qualquer divergência sobre esta matéria.
- A confissão religiosa com a qual cada um dos nossos membros se identifica não nos diz respeito. Isto deverá constituir um assunto inteiramente pessoal que cada um decide por si à luz de crenças passadas ou de preferências actuais. Nem todos nós aderimos a confissões religiosas mas a maioria apoia esse género de filiação.
- No próximo capítulo faz-se uma explicação do alcoolismo, como o entendemos, e o capítulo seguinte é dirigido aos agnósticos. Muitos dos que faziam parte desta categoria são agora nossos membros. Por mais estranho que pareça, vimos que tais convicções não constituem grande obstáculo para uma experiência espiritual.
- Mais adiante, indicamos vias bem definidas mostrando como nos recuperámos, seguidas de quarenta e três histórias de experiências pessoais.
- Nestas histórias pessoais, cada pessoa descreve na sua própria linguagem e pela sua perspectiva o modo como estabeleceu a sua relação com Deus. Estas histórias representam uma amostra razoável do conjunto dos nossos membros e dão uma ideia clara do que realmente lhes aconteceu nas suas vidas.
- Esperamos que ninguém considere estes relatos íntimos de mau gosto. É nossa esperança que este livro chegue a muitos alcoólicos, homens e mulheres em desespero, e acreditamos que só através da completa revelação de nós mesmos e dos nossos problemas se convencerão a dizer: "Sim, sou também um deles. Preciso de ter o que eles têm".
Capítulo 3MAIS SOBRE O ALCOOLISMO - A maior parte de nós recusava-se a admitir que éramos realmente alcoólicos. Ninguém gosta de pensar que é física e mentalmente diferente dos outros. Não é portanto surpreendente que os nossos percursos alcoólicos se caracterizassem por inúmeras e vãs tentativas para provar que podíamos beber como os outros. A grande obsessão de qualquer bebedor anormal é a ideia de que um dia conseguirá, por um processo qualquer, beber controladamente e até com prazer. Esta ilusão é duma obstinação surpreendente. Muitos perseguem-na até às portas da loucura ou da morte.
- Percebemos que tínhamos de admitir no mais fundo de nós mesmos que éramos alcoólicos. Este é o primeiro passo para a recuperação. É preciso acabar com a ilusão de que somos ou podemos vir a ser como os outros.
- Como alcoólicos, somos homens e mulheres que perdemos a capacidade de controlar a nossa maneira de beber. Sabemos que nenhum verdadeiro alcoólico jamais recupera esse controlo. Todos nós sentimos por vezes que estávamos a recuperar o controlo, mas esses intervalos - geralmente breves - eram inevitavelmente seguidos por uma perda de controlo cada vez maior que, com o tempo, dava lugar a uma deplorável e incompreensível desmoralização. Estamos todos convencidos, sem excepção, de que alcoólicos do nosso género sofrem de uma doença progressiva. Depois de um certo tempo pioramos, nunca melhoramos.
- Somos como pessoas que perderam as pernas; nunca mais crescem outras. Nem tão-pouco parece existir qualquer espécie de tratamento que faça de alcoólicos como nós, pessoas iguais às outras. Tentámos todos os remédios possíveis. Em certos casos, tem havido recuperações passageiras, sempre seguidas por recaídas ainda mais graves. Médicos que lidam com o alcoolismo estão de acordo em que não é possível converter um alcoólico num bebedor normal. Talvez um dia a ciência consiga isto, mas por enquanto ainda não o conseguiu.
- Apesar de tudo o que pudermos dizer, muitos dos que são realmente alcoólicos não vão acreditar que pertencem a esta categoria. Tentarão convencer-se, por todas as formas de auto-ilusão e experimentação, de que são excepções à regra e, por conseguinte, que não são alcoólicos. Se entre os que não conseguem controlar o seu consumo de bebida, houver um único que consiga dar a volta e beber como um senhor, tiramos-lhe o chapéu. Deus sabe os esforços e o tempo que empregámos para beber como os outros!
- Estes são alguns dos métodos que experimentámos: beber só cerveja, reduzir o número de bebidas, nunca beber sozinho, nunca beber de manhã, beber só em casa, nunca ter bebidas em casa, nunca beber durante as horas de trabalho, beber só em festas, mudar de whisky para brandy, beber só vinhos naturais, concordar em dimitirmo-nos do emprego em caso de bebedeira no trabalho, fazer uma viagem, não a fazer, jurar deixar de beber para sempre (com ou sem jura solene), fazer mais exercício físico, ler livros edificantes, ir para centros de saúde e sanatórios, aceitar voluntariamente o internamento em asilos - poderíamos prolongar esta lista indefinidamente.
- Não gostamos de dizer a ninguém que é alcoólico, mas cada um pode fazer o seu próprio diagnóstico: que entre no bar mais próximo e tente beber controladamente; faça por beber e parar de repente; tente mais do que uma vez. Não tardará muito para poder decidir, se for honesto consigo mesmo. Talvez valha a pena passar por uma crise de grande agitação se isso levar ao conhecimento da sua condição.
- Embora não haja processo de o provar, pensamos que, no início do nosso percurso alcoólico, a maioria de nós podia ter parado de beber. A dificuldade, porém, está no facto de que poucos alcoólicos têm vontade de parar de beber enquanto é tempo. Temos conhecimento de alguns casos em que pessoas, com sinais evidentes de alcoolismo, conseguiram parar por largos períodos devido a um irresistível desejo de o fazer.
- Um desses casos era um homem de trinta anos que apanhava periodicamente grandes bebedeiras. Ficava muito nervoso de manhã depois destas bebedeiras e acalmava-se com mais álcool. Tinha a ambição de ter êxito com os seus negócios e percebeu que não ia longe se continuasse. De cada vez que começava, perdia por completo o controlo. Decidiu que, até alcançar o sucesso pretendido e reformar-se, não ia tocar numa gota de álcool. Como homem excepcional que era, manteve-se sem beber durante vinte e cinco anos e, depois de uma carreira profissional com êxito e feliz, reformou-se aos cinquenta e cinco. Então sucumbiu à ilusão, que é comum a quase todos os alcoólicos, de que o seu longo período de sobriedade e autodisciplina lhe davam o direito de beber como os outros. E assim enfiou os chinelos e puxou da garrafa. Em menos de dois meses estava no hospital, confuso e humilhado. Tentou moderar a sua maneira de beber durante um certo tempo, enquanto fazia uns tantos internamentos hospitalares. Reunindo então todas as suas forças, procurou parar de vez e compreendeu que não conseguia. Tinha ao seu alcance todos os meios possíveis que o dinheiro podia comprar para resolver o seu problema. Falharam todas as tentativas. Apesar de ser um homem robusto na altura em que se reformou, caiu verticalmente em pouco tempo e morreu quatro anos depois.
- Este caso encerra uma grande lição. Muitos de nós pensámos que se ficássemos sóbrios por muito tempo, poderíamos a seguir beber normalmente. Mas aqui está um caso de um homem que, aos cinquenta e cinco anos, descobriu que estava precisamente no mesmo ponto donde tinha partido aos trinta. Temos visto repetidamente confirmada esta verdade: "Uma vez alcoólico, sempre alcoólico". Começando a beber depois de um período de sobriedade, em breve estamos tão mal como estávamos. Se quisermos deixar de beber, não pode haver reservas de qualquer espécie, nem nenhuma ideia remota de que algum dia seremos imunes ao álcool.
- A experiência deste homem pode levar jovens a pensar que é possível parar de beber com base na força de vontade, tal como ele fez. Duvidamos de que muitos o consigam, porque nenhum quererá realmente deixar de beber. E será muito raro que algum o consiga, devido à peculiar deformação mental já adquirida. Alguns dos nossos membros, com trinta anos de idade ou menos, beberam só durante poucos anos, mas sentiram--se tão desesperados como os que beberam durante vinte anos.
- Para se ficar seriamente afectado, não é preciso beber durante muito tempo nem beber tanto como alguns de nós. Isto aplica-se particularmente às mulheres. Mulheres alcoólicas em potência tornam-se frequentemente verdadeiras alcoólicas de um modo irreversível em poucos anos. Certos bebedores, que se sentiriam gravemente ofendidos se lhes chamassem alcoólicos, ficam surpreendidos por serem incapazes de parar. Nós que conhecemos bem os sintomas, vemos um grande número de alcoólicos em potência entre os jovens por toda a parte. Mas tente fazer-lhes ver isso!
- Olhando para trás, temos a impressão de termos continuado a beber muitos anos para além do limite em que podíamos parar pela força de vontade. Se alguém se interrogar se já entrou nesta fase perigosa, que tente deixar de beber só por um ano. Se for realmente alcoólico e num grau já muito adiantado, há poucas probabilidades de que resulte. Nos primeiros tempos da nossa carreira alcoólica, ficámos ocasionalmente sóbrios por um ano ou mais, tornando-nos de novo mais tarde sérios bebedores. Embora você possa parar por um período de tempo apreciável, pode ainda ser um alcoólico em potência. Em nossa opinião, entre todos aqueles a quem este livro possa interessar, poucos são os que conseguirão ficar sem beber cerca de um ano. Alguns apanharão uma bebedeira no dia seguinte a tomarem essa decisão. A maioria, dentro de poucas semanas.
- Para aqueles que não conseguem beber moderadamente, a questão é de como parar por completo. Obviamente partimos do princípio de que o leitor quer parar de beber. Para saber se isto é possível sem ajuda espiritual, depende até que ponto essa pessoa já perdeu a capacidade de escolher entre beber ou não beber. Muitos de nós pensávamos ter um carácter forte. Tínhamos uma necessidade tremenda de parar de vez. Porém, não conseguíamos. Esta é a característica desconcertante do alcoolismo: a total incapacidade para deixar definitivamente o álcool, qualquer que seja a nossa necessidade ou desejo.
- Como é que então podemos ajudar os nossos leitores a determinar, para sua inteira satisfação, se são ou não como nós? A experiência de parar de beber por um tempo, pode ajudar, mas pensamos que nós podemos prestar um serviço ainda maior aos que sofrem de alcoolismo e talvez mesmo à profissão médica. Faremos pois a descrição dos estados mentais que antecedem a recaída, porque é este obviamente o ponto crucial do problema.
- Que tipo de pensamento domina o alcoólico que repete vez atrás de vez a experiência desesperante da primeira bebida? Os amigos que o têm tentado chamar à razão, depois de uma bebedeira que o levou praticamente ao divórcio ou à falência, ficam perplexos quando o vêem entrar disparado no primeiro bar. Porque é que ele faz isto? Em que é que está a pensar?
- O nosso primeiro exemplo é um amigo que chamaremos Jim. Este homem tem uma mulher e família encantadoras. Herdou uma agência lucrativa de automóveis. Tinha uma folha de serviços de guerra exemplar. É um bom vendedor. Todos gostam dele. É um homem inteligente, aparentemente normal, a não ser por traços de nervosismo que revela. Nunca bebeu até aos trinta e cinco anos. Em poucos anos tornou-se tão violento, quando estava bêbedo, que teve de ser internado. Ao sair, entrou em contacto connosco.
- Contámos-lhe o que sabíamos sobre alcoolismo e a solução que encontrámos. Ele fez uma primeira tentativa. A sua família foi reconstituída e começou a trabalhar como vendedor na empresa onde tinha perdido o emprego por beber. Tudo correu bem durante um tempo, mas ele esqueceu-se de cuidar da sua vida espiritual. Para sua própria consternação, embebedou-se uma série de vezes seguidas. Em cada uma destas ocasiões, trabalhámos com ele, revendo cuidadosamente o que tinha acontecido. Reconheceu que era alcoólico num estado já adiantado. Sabia que estava perante outro internamento se continuasse a beber. Além disso, perderia a sua família por quem tinha um profundo afecto.
- Porém, ele voltou a embebedar-se. Pedimos-lhe que nos contasse exactamente como tinha acontecido. A história é esta: "Vim trabalhar na terça-feira de manhã. Lembro-me de me ter sentido irritado por ter que ser vendedor da firma de que tinha sido proprietário. Houve uma troca de palavras com o chefe mas nada de grave. Depois decidi ir para fora da cidade para visitar um cliente interessado num carro. No caminho senti-me com fome e parei num bar à beira da estrada. Não fazia tenções de beber. Queria só comer qualquer coisa. Pensei também que poderia lá encontrar um cliente, porque conhecia bem esse bar que frequentava há anos. Tinha lá comido muitas vezes durante os meses em que estive sóbrio. Sentei-me a uma mesa e pedi uma sandwich e um copo de leite. Até aí não pensei em beber. Pedi outra sandwich e outro copo de leite.
- "De repente, passou-me pela cabeça a ideia que se pusesse uma pequenina dose de whisky no leite não me podia fazer mal com o estômago cheio. Pedi um whisky e despejei-o no leite. Tive a vaga impressão de que não estava a ser muito sensato, mas senti-me tranquilo por estar a beber com o estômago cheio. Senti-me tão bem que pedi outro whisky e despejei-o outra vez no leite. Não me pareceu que me fizesse mal e pedi outro".
- Assim começava mais outra viagem de Jim para ser internado. Ele deparava-se com a ameaça do internamento, a perda da família e do emprego, para não mencionar o intenso sofrimento mental e físico que lhe causava sempre o álcool. Ele conhecia-se muito bem como alcoólico. Porém, todas as razões para não beber eram facilmente postas de lado perante a ideia louca de que podia beber whisky se o misturasse com leite!
- Qualquer que seja a definição exacta do termo, nós chamamos a isto loucura pura e simples. Como é que se pode qualificar de outra maneira uma tal falta de equilíbrio, uma tal incapacidade de raciocinar como deve ser?
- Pode pensar-se que este é um caso extremo. Para nós não é, porque esta maneira de pensar caracterizou cada um de nós. Por vezes reflectíamos até ainda mais do que Jim sobre as consequências do nosso comportamento mas, de cada vez, surgia sempre esse estranho fenómeno mental que arranjava, em simultâneo com um raciocínio coerente, um pretexto incrivelmente banal para se tomar o primeiro copo. A coerência de qualquer raciocínio não nos servia para nada. Era a ideia louca que prevalecia. No dia seguinte interrogávamo-nos com toda a seriedade e franqueza como é que isto podia ter acontecido.
- Em certas ocasiões fomos embebedar-nos deliberadamente, sentindo-nos justificados pelo nervosismo, raiva, preocupação, depressão, inveja ou outras razões semelhantes. Mas mesmo nas alturas em que tudo começava assim, temos de admitir que a nossa justificação para apanharmos uma bebedeira era de loucura em comparação com as inevitáveis consequências. Agora vemos que sempre que começávamos a beber deliberadamente e não por acaso, na altura da premeditação, a nossa maneira de pensar no que poderiam ser as terríveis consequências era pouco séria ou eficaz.
- O nosso comportamento é tão absurdo e incompreensível, em relação à primeira bebida, como o de uma pessoa, por exemplo, que tem a mania de atravessar a rua à balda. Sente um enorme prazer em se esquivar à frente dos carros a grande velocidade. Diverte-se imenso durante uns anos apesar dos avisos dos amigos. Até aqui, podia-se qualificá-lo como um tonto com ideias bizarras sobre divertimento. De repente, a sorte desampara-o e ele é levemente ferido várias vezes seguidas. Esperava-se que acabasse com o jogo, se fosse normal. Mas volta a ser atropelado e desta vez sofre uma fractura do crânio. Uma semana depois de ter deixado o hospital, é atropelado por um eléctrico e parte um braço. Afirma ter decidido pôr definitivamente de lado o seu divertimento, mas em poucas semanas parte as pernas.
- Durante anos continua com este comportamento, sempre com promessas repetidas de ser prudente e de deixar de uma vez por todas de andar na rua. Por fim, já não consegue trabalhar, a mulher pede o divórcio e é posto a ridículo. Tenta por todos os meios tirar da cabeça a sua mania. Dá entrada numa casa de saúde, na esperança de se corrigir, mas no mesmo dia em que sai, põe-se a correr à frente dum carro de bombeiros que lhe parte a coluna. Uma tal pessoa seria doida, não é verdade?
- A nossa comparação pode parecer demasiado ridícula. Mas será? Nós, que temos passado por experiências terríveis, temos de admitir que, se substituíssemos a ideia em questão pelo alcoolismo, a imagem adaptava-se a nós perfeitamente. Por mais inteligentes que possamos ter sido noutros domínios, no que diz respeito ao álcool, temos sido inexplicavelmente dementes. É duro de ouvir, mas não é verdade?
- Alguns de vocês podem pensar: "Sim, o que nos contam é verdade, mas não é totalmente o nosso caso. Admitimos ter alguns desses sintomas, mas não chegámos ao ponto a que vocês chegaram, nem é muito provável que isso aconteça, porque temos uma compreensão tão grande de nós mesmos, depois do que nos descreveram, que tais coisas não podem voltar a acontecer. Não perdemos tudo na vida por causa do álcool e não é certamente essa a nossa intenção. Obrigado pela informação".
- Isto pode ser verdade em relação a certas pessoas não alcoólicas que, apesar de ainda beberem dum modo disparatado e em excesso, conseguem parar ou moderar o seu consumo de bebida, porque não estão física e mentalmente tão danificadas como nós. Mas o alcoólico verdadeiro ou em potência, quase sem excepção, será completamente incapaz de parar de beber a partir do conhecimento de si mesmo. Queremos repetidamente salientar este facto para que os nossos leitores alcoólicos o compreendam bem, visto que ele a nós nos foi dado a conhecer através de experiências bem amargas. Vejamos outro exemplo.
- Fred é sócio de uma conhecida firma de contabilidade. O seu vencimento é bom, tem uma bela casa, um casamento feliz e é pai de crianças, em idade universitária, que prometem. Tem uma personalidade tão cativante que faz amigos em todo o lado. Se alguém teve sucesso profissional, esse alguém é Fred. Aparentemente é estável e bem equilibrado. Porém, é alcoólico. Vimos Fred pela primeira vez há um ano num hospital, onde tinha estado para se reabilitar de uma terrível crise de agitação alcoólica. Era a sua primeira experiência deste género, da qual se envergonhava muito. Longe de admitir que era alcoólico, convenceu-se de que tinha sido hospitalizado para tratar dos nervos. O médico explicou-lhe com firmeza que o caso era bem pior do que ele pensava. Durante uns dias sentiu-se deprimido com a sua condição. Decidiu então deixar por completo de beber. Nunca lhe ocorreu que talvez não conseguisse, apesar do seu carácter e posição. Não acreditava que era alcoólico e muito menos aceitava uma solução espiritual para o seu problema. Contámos-lhe o que sabíamos sobre alcoolismo. Mostrou-se interessado e reconheceu que tinha alguns dos sintomas, mas não estava preparado para admitir que não podia fazer nada sozinho em relação a isso. Tinha a certeza de que esta experiência humilhante e a informação recebida iriam mantê-lo sóbrio para o resto da vida. O conhecimento de si próprio iria resolver tudo.
- Durante um tempo não tivemos notícias de Fred. Um dia disseram-nos que estava de novo no hospital e desta vez muito mal. Não tardou em mostrar que estava ansioso por nos ver. A história que nos contou é extremamente esclarecedora, porque se trata de um homem absolutamente convencido de que tinha que deixar de beber, que não tinha a menor desculpa para beber, que manifestava um discernimento e determinação extraordinários em todos os outros aspectos e, contudo estava de rastos.
- Deixemos que seja ele a contar o que se passou: "Impressionou-me muito o que me disseram sobre alcoolismo e francamente não pensei que fosse possível voltar a beber. Achei muito interessante as vossas noções sobre essa subtil demência que antecede a primeira bebida, mas estava seguro que isso não me podia acontecer depois do que ouvi. Pensei que não estava num estado tão adiantado como o vosso, que tinha de um modo geral resolvido com sucesso os meus outros problemas pessoais e que portanto teria êxito onde vocês tinham fracassado. Senti que tinha todo o direito de ter confiança em mim mesmo e que seria apenas uma questão de força de vontade e de estar atento.
- "Neste estado de espírito, retomei a minha actividade e durante um tempo correu tudo bem. Não tinha dificuldade em recusar bebidas e comecei a pensar se não estaria a complicar uma coisa tão simples. Um dia fui a Washington para apresentar uns documentos de contabilidade num departamento governamental. Não era a primeira vez que saía em viagem durante este período em que estive sem beber, de modo que não era novidade. Fisicamente sentia-me bem e também não tinha problemas nem preocupações especiais. O meu negócio correu bem, fiquei satisfeito e sabia que os meus sócios também ficariam. Era o fechar de um dia perfeito, sem uma única nuvem no horizonte.
- "Fui para o hotel e arranjei-me calmamente para ir jantar. Ao entrar na sala de jantar, veio-me à ideia que seria agradável tomar um ou dois cocktails para acompanhar a refeição. Era tudo. Mais nada. Pedi um cocktail e o jantar. Depois pedi outro cocktail. A seguir ao jantar decidi ir dar um passeio. Quando voltei para o hotel, ocorreu-me que seria bom tomar um whisky com soda antes de me deitar. Entrei no bar e tomei o meu whisky. Lembro-me de beber mais uns tantos nessa noite e muitos mais na manhã seguinte. Tenho uma ideia nebulosa de ter viajado de avião para Nova Iorque e de ter dado com um condutor de taxi simpático no aeroporto em vez da minha mulher. O condutor andou comigo um pouco por toda a parte durante vários dias. Não faço a menor ideia por onde andei, do que disse ou do que fiz. Por fim, veio o hospital com um insuportável sofrimento mental e físico.
- "Logo que recuperei a capacidade para pensar, passei cuidadosamente em revista aquela noite em Washington. Não só não tinha estado atento, como não fiz a menor resistência à primeira bebida. Desta vez nem sequer tinha pensado nas consequências. Tinha começado a beber despreocupadamente como se os cocktails fossem um refresco. Lembrei-me então do que me tinham dito os meus amigos alcoólicos, como tinham previsto que o momento e lugar chegariam em que voltaria a beber, se eu tivesse uma mentalidade alcoólica. Tinham dito que, apesar das minhas defesas, elas cederiam um dia perante qualquer desculpa banal para beber. Pois bem, foi exactamente o que aconteceu e mais ainda, porque o que tinha aprendido sobre alcoolismo nem sequer me veio à ideia. A partir daí fiquei a saber que tinha uma mentalidade alcoólica. Percebi que a força de vontade e o autoconhecimento de nada serviam nas alturas desses estranhos apagamentos mentais. Nunca tinha conseguido perceber as pessoas que diziam que o problema as tinha irremediavelmente derrotado. Compreendi então. Foi um golpe devastador.
- "Dois membros dos Alcoólicos Anónimos vieram visitar-me. Sorriram ao ver-me, o que não me agradou, e depois perguntaram-me se eu me considerava alcoólico e realmente derrotado desta vez. Tive de reconhecer ambos os factos. Deram-me inúmeros exemplos evidentes de como uma mentalidade alcoólica, como a que eu tinha revelado em Washington, era uma condição sem esperança. Citaram dúzias de casos baseados na sua própria experiência. Isto apagou a última centelha de convicção de que eu podia resolver o caso sozinho.
- "Então explicaram-me em poucas palavras a solução espiritual e o programa de acção que uma centena deles tinha seguido com êxito. Apesar de ter sido apenas um crente não praticante, intelectualmente não me foi difícil aceitar os seus princípios. Mas o programa de acção, embora de grande sensatez, era bastante drástico. Significava que tinha de deitar pela janela fora noções de uma vida inteira. Isso não era fácil. Mas a partir do momento em que decidi adoptar inteiramente este programa, tive o estranho sentimento de que a minha condição alcoólica se tinha atenuado, como de facto aconteceu.
- "Mais importante ainda foi descobrir que princípios espirituais resolveriam todos os meus problemas. Desde então, fui conduzido a um modo de vida infinitamente mais compensador e, espero, mais útil do que a vida que tinha levado até aí. A minha antiga maneira de viver não era de todo má, mas não trocava os melhores momentos de então pelos piores que agora tenho. Não voltava para trás mesmo que pudesse."
- A história de Fred fala por si. Temos esperança de que atinja bem fundo milhares como ele. Ele só chegou a sentir as primeiras dores do grande tormento. A maioria dos alcoólicos tem de ficar bem destruída antes de começar a resolver realmente os seus problemas.
- Muitos médicos e psiquiatras estão de acordo com as nossas conclusões. Um deles, que faz parte do pessoal dum hospital de fama mundial, fez-nos recentemente a seguinte declaração: "O que dizem sobre a situação geralmente irremediável do alcoólico típico é, na minha opinião, correcto. Quanto a dois de vocês, cujas histórias ouvi, não tenho dúvida nenhuma de que os vossos casos eram 100% irrecuperáveis, excepto com ajuda divina. Se tivessem vindo para este hospital para serem tratados, não vos teria admitido, se me fosse possível recusá-lo. Pessoas como vocês são demasiado confrangedoras. Embora eu não seja uma pessoa religiosa, sinto um profundo respeito pela abordagem espiritual em casos como os vossos. Para a maioria desses casos, não há outra solução."
- Mais uma vez insistimos: o alcoólico, em certas ocasiões, fica sem nenhuma defesa mental eficaz contra a primeira bebida. Excepto em casos muito raros, nem ele nem qualquer outro ser humano conseguem assegurar esta defesa. Ela tem de vir de um Poder Superior.
Capítulo 4NÓS, OS AGNÓSTICOS - Nos capítulos anteriores você aprendeu um pouco sobre alcoolismo. Esperamos ter estabelecido bem a diferença entre o alcoólico e o não alcoólico. Se se aperceber de que lhe é impossível deixar por completo de beber, mesmo quando quer honestamente, ou se, quando bebe, tem pouco controlo sobre as quantidades que toma, provavelmente é alcoólico. Se for esse o caso, é possível que sofra de uma doença que só uma experiência espiritual pode vencer.
- Para aquele que se considera ateu ou agnóstico, uma tal experiência parece-lhe impossível, mas continuar no seu actual estado será um desastre, especialmente se for um alcoólico do tipo irrecuperável. Ver-se condenado a uma morte por alcoolismo ou viver segundo princípios espirituais não são alternativas fáceis de encarar.
- Mas não é assim tão difícil. Cerca de metade dos nossos primeiros membros eram exactamente desse género. Ao princípio, alguns de nós tentámos evitar a questão, na inútil esperança de não sermos realmente alcoólicos. Mas, depois de um certo tempo, tivemos de encarar o facto de que precisávamos de encontrar uma base espiritual para a nossa vida, ou de outro modo não havia solução para nós. Talvez venha a ser este o seu caso. Mas anime-se, aproximadamente metade dos nossos membros consideravam-se ateus ou agnósticos. A nossa experiência prova que não tem de se sentir desanimado.
- Se um simples código moral ou uma melhor filosofia de vida fossem suficientes para superar o alcoolismo, muitos de nós teríamos recuperado há muito tempo. Porém, apesar de todos os nossos esforços, percebemos que tais códigos e filosofias em nada nos ajudavam. Podíamos querer levar uma vida moral, ser filosoficamente confortados, podíamos mesmo querer tudo isto com todas as nossas forças, mas o poder necessário para o alcançar não estava lá. Os nossos recursos humanos dirigidos pela nossa vontade não eram suficientes. Falhavam completamente.
- Faltava-nos esse poder. Era esse o nosso dilema. Tínhamos que descobrir uma força pela qual poderíamos viver e tinha que ser uma Força superior à nossa. Isso era óbvio, mas onde e como íamos nós encontrar essa Força?
- Pois bem, é precisamente disso que trata este livro. O seu objectivo principal é ajudá-lo a encontrar uma Força maior do que a sua que resolva o seu problema. Por outras palavras, escrevemos um livro que, em nossa opinião, trata de princípios espirituais e éticos. E isto significa naturalmente que vamos falar de Deus. É aqui que surje a dificuldade com os agnósticos. Muitas vezes, falamos com uma pessoa recém-chegada e vemos crescer as suas esperanças à medida que abordamos o seu problema alcoólico e lhe explicamos o nosso movimento. Mas quando falamos de assuntos espirituais ela começa logo a retrair-se, muito em particular, ao mencionarmos a palavra Deus, porque tocámos numa questão que ela pensava ter posto definitivamente de lado ou ignorado por completo.
- Compreendemos a sua reacção. Já partilhámos essa mesma dúvida sincera e o mesmo preconceito. Alguns de nós fomos violentamente anti--religiosos. Para outros, a palavra "Deus" evocava uma determinada ideia que alguém lhes tinha tentado incutir na infância. Talvez rejeitássemos essa particular concepção por parecer inadequada. Com isso, supúnhamos ter abandonado por completo a ideia de Deus. Para nós, a fé e a dependência dum Poder para além de nós mesmos representavam uma certa fraqueza, até mesmo uma cobardia, e essa ideia incomodava-nos. Víamos com profundo cepticismo este mundo de pessoas sempre em guerra, de sistemas teológicos em conflito e de calamidades inexplicáveis. Olhávamos com suspeita para muitos daqueles que se diziam devotos. Em que medida podia um Ser Supremo ter qualquer coisa a ver com tudo isto? E, de resto, quem poderia entender um Ser Supremo? Contudo, noutras alturas, deslumbrados com uma noite de estrelas, púnhamo-nos a pensar, "Quem, afinal, fez tudo isto?" Era um momento de admiração e espanto, porém fugaz e que em breve passava.
- Sim, nós que somos agnósticos, tivemos essas ideias e experiências, mas vamos tranquilizá-lo rapidamente. Assim que pusemos de parte os nossos preconceitos e manifestámos boa vontade para acreditar num Poder superior a nós mesmos, descobrimos que começávamos a obter resultados, ainda que fosse impossível para qualquer um de nós definir ou compreender inteiramente esse Poder que é Deus.
- Para nosso grande alívio, descobrimos que não tínhamos de adoptar uma concepção de Deus que nos fosse imposta. A nossa própria concepção, por mais inadequada que fosse, era suficiente para abrir o caminho e estabelecer a comunicação com Ele. A partir do momento em que admitimos a possibilidade da existência de uma Inteligência Criadora, de um Espírito do Universo subjacente a tudo, começámos a sentir-nos inspirados por uma nova força e orientação, desde que nos dispuséssemos a tomar outras medidas simples. Percebemos que Deus não impõe condições muito difíceis àqueles que O procuram. Para nós, o Reino do Espírito é vasto, amplo, ilimitado, onde não há lugar para exclusão nem interdição para os que o buscam com sinceridade. Cremos que está aberto a todos.
- Assim, quando falamos de Deus, referimo-nos à concepção pessoal de cada um. Isto aplica-se de igual modo a outras expressões espirituais que se encontram neste livro. Não deixe que qualquer preconceito seu contra termos espirituais o impeça de reflectir honestamente sobre o significado que cada um deles tem para si. De princípio, era só disto que precisávamos para dar início ao nosso crescimento espiritual e para estabelecer a nossa primeira relaç&a
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